A literatura no contexto na revolução digital

A sociedade tem passado por diversas transformações simultâneas que têm acelerado o avanço de tecnologias, principalmente daquelas relacionadas aos meios de comunicação

Por Míriam Gomes de Freitas* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O mundo tem se tornado um espaço de informação e de comunicabilidade, pois as mudanças que vêm surgindo nesse aspecto têm sido um reflexo significativo na esfera cultural. Portanto, novas maneiras e sentidos de expressão e de comunicação estão se despontando, lado a lado, com as formas convencionais já existentes anteriormente, entre as décadas de 1960 e 1980. Uma dessas formas, que tem revolucionado os conceitos de expressão do pensamento e da escrita por meio das inovações tecnológicas, é a literatura. O surgimento das novas tecnologias digitais ocasionou uma grande mudança comportamental no homem, e um novo olhar para os processos da escrita tem sido vivenciado, porque a literatura adquiriu formas inusitadas de compor suas narrativas e suas teias poéticas.

 

Nos últimos anos, a inter-relação das tecnologias computacionais com a literatura adquiriu uma dimensão muito significativa, proporcionando ao leitor um aparato de novas ferramentas digitais que lhe possibilitaram a leitura de jornais, revistas, livros, etc., por meios das telas de telefones celulares, desktops, laptops, tablets, iPad, e-readers e de outros meios multimídias aos quais temos acesso. A quantidade de e-books gratuitos existentes hoje na internet facilita para que o leitor possa ler apenas com um click, fazendo o download dos textos que ele mesmo seleciona. Através da web, há inúmeras possibilidades de leituras, porque a interação que ela oferece ao leitor é muito extensa e diversificada, pois a acessibilidade a blogs e sites de literatura onde muitos escritores divulgam seus textos é numerosa. Nos dias atuais, é imprescindível que o escritor também se publique pelas redes sociais e em outros espaços da internet, por onde o leitor ou o navegador da web é capaz de chegar sem nenhuma dificuldade de acesso. Os autores mais atuais utilizam-se da internet até mesmo para produzir seus livros, através de blogs onde o leitor possa interagir com o autor, podendo mesmo opinar diretamente no processo de criação do escritor, tornando-se, assim, um coautor.

 

Hoje existe uma grande variedade de sites e blogs de literatura que publicam e divulgam os autores e suas obras. Alguns exemplos desses espaços especializados em literatura na internet, onde se encontra textos de escritores iniciantes e de outros já adeptos à nova forma de fazer literatura, é Literatura e Arte – Cronópios, Portal Literal, Releituras, Jornal Rascunho, Literatura em Foco, Germina – revista de Literatura e Arte – e muitos outros, repletos de informações sobre literatura e entrevistas com autores e pessoas do mundo da arte.

 

Autores como Fabrício Carpinejar, Marcelino Freire, Santiago Nazarian, Daniel Galera, Thalita Rebouças, Raphael Draccon mantêm seus blogs em que escrevem seus textos e informações diversas sobre literatura. Através desse espaço cibernético, tais escritores se comunicam com seus leitores, divulgam sua literatura, e muitos deles, como Fabrício Carpinejar, acabam por transformar os textos de seu blog em livro impresso. Esses autores são da geração que contribui para a expansão da literatura pela internet, pois acreditam que esse veículo midiático veio como um meio facilitador para a difusão da literatura e dos seus autores. Com o advento da internet, há uma proximidade maior do autor com o leitor, pois quem escreve não está mais distante de quem lê. Essa hierarquia já não tem mais relevância quando se trata de uma literatura digital e de um leitor virtual.

 

A literatura hoje, diferentemente da década passada, é muito mais acessível às pessoas porque se encontra disponível no quase infinito espaço cibernético. Por exemplo, o Google tem disponibilizado mais de 12 milhões de livros aos seus leitores virtuais, incluindo desde os autores iniciantes aos mais conhecidos. Assim, permite que os leitores virtuais leiam obras que muitas vezes já não se encontram mais disponíveis nas prateleiras das livrarias porque estão esgotadas na editora. A literatura tem assumido uma nova roupagem diante da diversidade de ferramentas digitais que estão surgindo muito rapidamente, em um processo dinâmico de interação e comunicação em que se insere a criação literária. O espaço virtual da ciberliteratura consiste em oferecer possibilidades de manipulação da linguagem verbal, permitindo o uso de recursos visuais e sonoros que nela podem ser inseridos. Dessa forma, deparamo-nos com um novo meio de suporte para o texto, que acaba por proporcionar o surgimento de um novo leitor e de uma nova linguagem. Assim, o encontro desse leitor virtual com a literatura do espaço cibernético tem sido diferente dos demais leitores do texto impresso, pois diante da escrita eletrônica e dos mecanismos utilizados para sua criação, nós nos vimos obrigados a desfazer e refazer conceitos sobre a linguagem, bem como questionar os valores estéticos da produção de um texto. Desse espaço cibernético surge o hipertexto, que está associado à pós-modernidade na composição de novas narrativas direcionadas ao paladar textual do leitor ou ao gosto estético do autor. Links e ícones, imagens e sons fazem parte da interatividade do texto midiático, e o leitor, assim, pode optar pelo caminho a seguir, de acordo com sua intenção ou objetivo, clicando nos hiperlinks que o redirecionarão a alguma página de sua escolha. Muitos procuram textos na internet apenas por entretenimento, outros, a fim de pesquisar um assunto atual ou não de tal maneira, que esse ciberespaço tem sido redimensionado a cada instante para atender aos bilhões de navegadores virtuais que necessitam dele.

 

Diante dessas mudanças e das novidades que o ciberespaço tem nos apresentado, é possível pensar na extinção do livro impresso?

 

Eis aqui uma pergunta que constantemente é feita nas mesas redondas dos congressos de literatura em universidades, nas palestras ou mesmo no bate-papo com amigos em uma mesa de bar. É evidente que a internet tem redimensionado a literatura de maneira diferente da qual estávamos acostumados. Porém, ela não extingue a proposta de leitura do livro impresso, porque sua funcionalidade é outra. A ciberliteratura trouxe àquele leitor específico, que aprecia ler os livros eletrônicos, a possibilidade de ler, além de textos, outras formas de interação com a linguagem, que é explorada através do viés tecnológico. Não há como negar que a literatura, em sua nova roupagem, vem trazendo uma série de meios de produção que acabam por estabelecer novas plataformas de expressão à nossa linguagem. Por outro lado, mesmo a partir dessas inovações em que a literatura se inseriu, existe ainda um incontável número de leitores adeptos à leitura do livro com suas páginas impressas no papel, os quais optam por sentir o cheiro de vertigem, de memória, de desejo que as histórias exalam no percurso de sua narrativa. Sendo assim, entende-se que ambas as literaturas possuem sua função, sua intenção, seu alvo. A importância de uma e da outra é fundamental para que possamos entender que elas são diferentes e necessárias dentro de seus contextos e de sua origem. Obras como Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e A comédia humana, de Balzac, surgiram simplesmente do bico de uma pena e nem por isso são de menor valor em comparação àquelas surgidas a partir do teclado. Portanto, não se pode impedir ou intimidar o leitor a manusear as páginas de um livro com os dedos; isso, pois, seria como lhe ferir o direito de utilizar sua imaginação e de agir conforme a sua vontade. Portanto, existe um público específico para cada formato de livro.

 

 

Considera-se que as formas de expressão da escrita antes eram diferentes das de hoje. Há duas décadas não possuíamos os recursos de tecnologia que agora possuímos. Com o advento da modernidade, houve muitas mudanças nos processos de comunicação e a escrita assumiu uma nova perspectiva, mais diversificada no sentido estético. Mas isso não nos permite afirmar que os escritores de hoje escrevem melhor dos que os de ontem. São produções diferentes, em épocas histórico-culturais distintas. É certo que a internet tem conduzido a leitura e os leitores para outros caminhos, sob novas possibilidades de textos e informações, pois o livro eletrônico é uma grande fonte de conhecimento e de possibilidades interativas e tem disseminado bastante a literatura em qualquer lugar do mundo. É necessário que saibamos utilizar e usufruir de seus benefícios, pois ele é uma realidade inegável, possui relevância significativa no atual contexto social e educativo da sociedade em que vivemos e está intimamente relacionado ao dinâmico processo de globalização contemporâneo.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 55

Adaptado do texto “A Literatura e o Espaço Cibernético”

*Míriam Gomes de Freitas é doutoranda em Estudos de Literatura (UFF), escritora, mestre em Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, além de professora de Língua Inglesa do Instituto Federal de Educação e Tecnologia de Juiz de Fora. E-mail: mfreitasbrazilmg@aol.com