A literatura infantil precisa de linguagem própria e efetiva para os pequenos

Por Simone Strelciunas Goh* | Fotos: Shutterstock  | Adaptação web Caroline Svitras

Por muito tempo a literatura infantil apresentou um discurso monológico, em que a criança não tinha vez nem voz, a leitura feita por ela mesma ou por um adulto se mostrava linear e superficial, atentando-se principalmente para moldes pedagógicos. Alice no País das Maravilhas rompe com esse estigma, na obra, Lewis Carrol inova por meio da ilogicidade e do nonsense, ao ler a obra a criança se perguntará em que lugar estaria Alice, seria mesmo possível cair e chegar ao outro lado do mundo?

 

Podemos ressaltar que uma obra literária pode ser apreciada a partir do papel ativo que ela possibilita a seu leitor, o livro não deve dar respostas prontas, mas sim aguçar a curiosidade, de forma que ao trazer tal interação a barreira do pedagógico será rompida.

 

É fato que as tentativas de diminuição do analfabetismo, com a inserção de programas de alfabetização como o Pnaic (Projeto nacional de alfabetização na idade certa), em nível federal e o Ler e Escrever, no estado de São Paulo, e consequentemente uma vontade de construir um ensino universitário mais crítico e reflexivo, trouxeram o livro infantil para primeiro plano. Mas, cabe ressaltar que a criança ainda é vista como um objeto de consumo e o livro, um produto comercial. O ser infantil convive assim com edições cuidadosas e de primor estético, como também com produções que se situam no lugar comum.

 

Diferentemente de Lewis Carroll, escritores atuais se rendem ao princípio mercadológico do livro infantil; a partir de uma história e/ou temática, criam-se coleções que saem do princípio livresco e adentram ao arquétipo de brinquedo: livro que vira castelo, carro, floresta numa simples dobradura, a imagem não funciona como mais uma possibilidade leitora, mas sim como um jogo lúdico, não de forma positiva, como se dá com as transformações simbólicas do jogo, mas um brincar imediatista: “Era uma vez um castelo vermelho” e na página seguinte do livro teremos a figura de um castelo. O espaço imaginativo restringiu-se ao olhar pronto da figura. Surgem no mercado editorial, inúmeros textos, que objetivam uma vendagem significante a um público que se atém apenas à leitura pouco interpretativa.

 

Histórica e socialmente submetida a preocupações de natureza educativa, enfatizadoras do seu valor de uso, em detrimento da sua percepção como arte, a literatura infantil tem sido objeto de uma contaminação por esses textos que, marcados pelos traços de uma literatura de características essencialmente comercial e popular, propagam um afastamento desta do núcleo canônico da literatura.

 

Magda Soares em estudo em que discute sobre o tratamento didático de que são alvo os textos da literatura infantil e juvenil em manuais escolares brasileiros, se refere a uma escolarização inadequada da literatura. Marisa Lajolo também tece duras críticas relativas ao modo como a literatura infanto-juvenil e, em particular, a poesia é objeto de tratamento pela escola e pelos seus principais dispositivos pedagógicos. De maneira que, não há necessidade do professor ter uma visão estrutural do texto, ser um especialista, o que se faz necessário são metodologias que proporcionem à criança/leitora o desvendar do texto e suas conexões com seu próprio mundo da leitura.

 

A criança, pela ausência da abstração, na primeira infância, encontra na literatura infantil o lugar para sua iniciação lúdica, para o desenvolvimento da fruição e do deleite, ou seja, de sua competência literária. Citamos aqui Chapeuzinho Amarelo, obra de Chico Buarque (BUARQUE, 2013), que cumpre os requisitos de uma leitura plural, ao brincar com o signo, com a expressividade das rimas e dos ritmos, construir e desconstruir as palavras, permitindo à criança sonhar com a narrativa da menina que sentia medo, ou reimaginar o texto: LOBOLOBOLOBO. Acrescentando, também, o fato da narrativa-poética trazer a intertextualidade com o conto de fadas. Citamos também Abracadabra (Goh, 2013) em que a metalinguagem do mundo dos livros é revelada aos pequenos leitores: “Enquanto o livro está lá no canto à espera de alguém que o abra as palavras ficam cochilando aguardando a tal mágica e… Abracadabra”, texto cujas experiências semióticas entre linguagem verbal e não verbal proporcionam à criança-leitora uma experiência de ressignificação do próprio objeto livro.

 

Para Cecília Meireles, o que o livro infantil carece é de eternidade, e deveria se distanciar da fugacidade e do envelhecimento:

“Faltava-lhes eternidade. E, para a criança, como para o adulto, a eternidade é um sonho inconfessado, mas vigilante, se não em termos divinos, pelo menos em humanos: reconhecer a continuidade do nosso destino na terra; sentir perpetuada esta interminável família humana, aconchego semelhante ao da enumeração bíblica, em que nos encontramos idênticos, desde sempre, para sempre, em nossas fraquezas e virtudes.”

 

Entre os livros, que cremos apresentar tal característica do não envelhecimento, citamos: Papai (CORENTIN, 2008), Ah, Os Lugares Aonde Você Irá (DR. SEUSS, 2001), Zoom (BANYAI, 1995), Adélia Sonhadora (ZATZ, 2012), A Felicidade das Borboletas (SECCO, s/d), Sopa de Botão de Osso (DAVIS, 1998). Esses livros fizeram parte de nossas aulas de literatura infantil para o curso de Pedagogia nos últimos seis anos e foram submetidos à análise, tendo como base a teoria em pauta.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 70

Adaptado do texto “Textualidade da literatura infantil”

*Simone Strelciunas Goh é doutora em Língua Portuguesa e Filologia pela FFLCH – USP. Professora das Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU – São Paulo – SP – Brasil. doc.simonegoh