A literatura de Mîllor Fernandes

Por Fernando Militelo | Adaptação web Caroline Svitras

 

No fim da vida Millôr mantinha um site pessoal e uma conta no Twitter, contando com mais de 280 mil seguidores. Seu último post, dizia: “Filosofia Milloriana: Antes de Freud o sexo era um pecado maravilhoso. Agora é um enrolo tedioso”. Sua trajetória pela imprensa brasileira foi marcante nas principais revistas do país, principalmente Veja, onde foi destacado colunista. Em seus mais de 70 anos de carreira produziu de forma prolífica e diversificada. Suas colunas de humor até mesmo no diário Jornal do Brasil, são memoráveis.

 

Usava contundentemente a ironia e a sátira para criticar o poder e as forças do poder. Por isso, frequentemente tinha a censura batendo em sua porta. Possuía um estilo considerado singular, apesar de sempre se autoproclamar um escritor sem estilo. Uma figura desbravadora no panorama cultural brasileiro, ganhando ainda destaque no teatro, por suas traduções e também pela autoria de um grande número de peças.

 

Crônicas em sala de aula

 

Millor nasceu em 1923, e morreu em março de 2011, aos 88 anos, com a saúde fragilizada após sofrer um acidente vascular três meses antes. Em seu blog, o jornalista português João Pereira Coutinho, assim tratou do nosso artista: “Millôr Fernandes escreveu para o Diário Popular de Lisboa entre 1964 e 1974. Anos sombrios. Portugal estava envolvido nas suas guerras coloniais. Internamente, as universidades fervilhavam de contestações ao regime, com a respectiva dose de violência policial sobre os contestatários. … O regime só terminaria com o pronunciamento militar de 25 de abril de 1974. E, no meio de tudo isso, Millôr Fernandes. Conheço bem os textos publicados por Millôr em Portugal, selecionei uma espécie de ‘best of’ de Millôr em um livro para o público luso. Todos os elogios são conhecidos. Mas é preciso acrescentar mais um: nos anos finais da ditadura portuguesa, Millôr era um cometa de anarquia e liberdade a cruzar os céus de Lisboa. Paradoxalmente, o próprio Salazar sabia disso. Rezam as crônicas que, ao ler o Diário Popular, Salazar começava sempre pela página ‘Pif-Paf’, de Millôr. Para concluir: ‘Este gajo tem piada. Pena que escreva tão mal o português.’ A sentença ilustra bem a ignorância literária de Salazar. Mas também a sua ignorância política.”

 

O Millôr lido em Portugal era o mesmo consumido no Brasil. E seu alvo era o mesmo, os ditadores, e as armas, também as mesmas, o humor cáustico. Assim destilava ele em suas fábulas, nas suas máximas, nos aforismos, nos haicais e nos cartuns e ilustrações. Absolutamente inovador à época. Brilhando por seu “antiautoritarismo”.

 

Contos de Machado de Assis

 

Escreveu então, “O país que precisa de um salvador não merece ser salvo”, e mais, “O voto é a arma do cidadão. A arma é o voto do governo.” As palavras de Millôr tinham no genoma a subversão e eram avessas aos dogmas: Sapecava ele, “Nada é mais falso do que uma verdade estabelecida”. Ou, “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.” O jornalista luso ponderou, quando da morte do nosso escritor, “ não creio que Millôr fosse um exemplo acabado de cinismo, pelo menos de cinismo nas versões brutais de Ambrose Bierce ou H.L. Mencken.

 

O caso de Bierce, aliás, é exemplar: quando lemos o seu ‘Dicionário do Diabo‘, uma espécie de antecessor espiritual da ‘Bíblia do Caos‘ de Millôr, o que espanta e desilude é o artificialismo dos textos. Millôr nunca desilude. Não apenas porque o seu cinismo, se merece o nome, revela uma leveza de tom e uma espantosa criatividade verbal que Bierce nunca alcançou. Mas porque esse cinismo era exercido sem o tom moralista de um pregador -ou não fosse Ipanema bem mais aprazível do que a América rural de Bierce. O fato é que Millor desarvorava qualquer cidadão com frases tais, ‘O dinheiro não dá felicidade. Mas paga tudo o que ela gasta’. ‘É impressionante a altura que um homem pode atingir apenas não descendendo de nível.’

 

‘Quando um homem casa, aceita totalmente a lei da oferta e da procura. O que ele não oferta, a mulher procura.’ ‘Até mesmo o suor do trabalho e o suor do prazer têm cheiros diferentes.’ ‘Depois de bem ajustado o preço, a gente deve sempre trabalhar por amor à arte.’ E a minha preferida, em apenas três palavras: ‘Herdar é humano’.” Certa vez Millôr Fernandes disse que o tradutor devia ter todo o rigor, mas nenhum respeito pelo original. E a tradução foi uma das artes praticadas por ele. Millor começou menino traduzindo a Luluzinha e outros gibis para a Editora O Cruzeiro. Depois seguiu na imprensa cartunista, jornalista, cronista, chargista, cartunista e colunista de humor.

 

Luluzinha (em inglês: Little Lulu) é uma personagem feminina de histórias em quadrinhos e desenhos animados norte-americana. Foi criada em 1935 por Marjorie Henderson Buell, conhecida como Marge. A primeira aparição da personagem foi numa charge que mostra a menina em frente aos noivos jogando cascas de banana no corredor duma igreja durante uma cerimônia de casamento. Luluzinha é uma menina muito esperta e teimosa, sua idade é entre oito a dez anos e gosta de aprontar várias peripécias, principalmente manter na linha seu amigo Bolinha e a turma do clube dos meninos. Suas charges, inteiramente desenhadas por Marge eram publicadas no jornal The Saturday Evening Post até 1945. Durante este período também foram lançados alguns livros com brincadeiras e passatempos com a personagem e seu amigo Bolinha para o público infantil.

 

Costumava dizer que na tradução tinha outra forma de expressão e diversão. Enfim, como diziam dele, era dramaturgo, romancista, fabulista, aforista e … polemista. A notável escritora brasileira Clarice Lispector entrevistou Millôr Fernandes em janeiro de 1977. De onde destacamos estes parágrafos do livro “Entrevistas”, da Editora Rocco . Onde ela assim introduziu o artista; “Não vou apresentar Millôr: quem o conhece sabe que eu teria que escrever várias páginas para apresentar uma figura tão variada em atividades e talentos. Somos amigos de longa data. Nossa entrevista decorreu fácil, sem incidentes de incompreensão. Havia confiança mútua. Como vai você, Millôr, profundamente falando? Vou profundamente, como sempre. Não sei viver de outro modo. Pago o preço.”

 

Clarice Lispector

“Conte-me algo de sua infância.

– Dura! Dura! Linda! Linda! O Méier, naquela época, era praticamente rural. Eu aprendi a nadar em um pântano, cheio de rãs. Aprendi a amar num quintal fazendo bonecos de tabatinga junto com as meninas. Essa infância durou até os dez anos. Aí, um dia, na morte de minha mãe, chorando horas embaixo de uma cama, eu consegui a paz da descrença. Aos dez anos, pois é.”

 

“De que modo lhe vem a inspiração, Millôr? Você sente que vem de seu inconsciente?

– Creio que exatamente de todos os modos. Mas não penso que seja precisamente inconsciente. Mesmo quando parece inconsciente acho que o núcleo da inspiração é uma vivência qualquer (imagem, som, dor, angústia) antes arquivada e de repente, por qualquer motivo (também exterior), ressuscitada. Mas meu caso é muito especial: não sou um escritor, sou um profissional de escrever.”

 

Confira a análise do conto “O ovo e a galinha”

 

“O que mais importa na vida?

– A relação humana. O amor. A paixão, nisso incluída. Também, ou sobretudo, as paixões condenadas, de homem com homem e mulher com mulher. Como sou aquilo que a sociedade chama de saudável e normal, as paixões anormais merecem o meu maior respeito.”

 

Sobre o multiartista o publicitário Webert Machado destacou; “… sempre fantástico, coração alado da criação, comunicação, do jornal, da sua estrela dourada do lado do Sol, Pasquim – saudades docê, Pasquim. E os milicos viviam em cima de nós! Comíamos bombons, ao invés de bombas… Eu ficava maluco com suas tirinhas ocultas de verdades… Beijo procê, Fernandes, mande cartoons daí, por favor! Incorpore algum cartunista jovem e faça cópia xerox de sua morte em vida! Ainda bem que o Ziraldo ainda anda por aqui. Ah, gerações ‘y’, ouçam os ‘baby boomers’ filhos da ditadura e do silêncio, que a gente gritava nos desenhos e nas letras do Millôr!”

 

Ensino da literatura nacional

 

Desenhista e jornalista Millôr Fernandes foi assim rotulado ao ser homenageado da Flip 2014, a grande festa da literatura Brasileira que ocorre anualmente em Paraty, RJ. Para o curador da Flip, Paulo Werneck., “Millôr trazia o mundo da Flip num homem só: da tradução de Shakespeare ao cartum, do jornalismo ao hai-kai. Sua crítica ao poder é fundamental no Brasil de 2014. Não foi por acaso que Millôr esteve entre os convidados da primeira Flip. Em seu trabalho, podemos reconhecer princípios que nortearam a festa literária, que dissolve fronteiras e promove a integração entre as artes. E que, assim como a obra de Millôr, fala para um público abrangente sem perder a erudição. Ele foi também um crítico da falsa cultura, das ilusões da glória literária e artística. Provou que erudição, humor e informalidade, juntos, formam uma liga indestrutível”.

 

De quebra, inventou o frescobol (“o único esporte em que ninguém ganha”) e uma concepção muito particular (e universal) de democracia: “Todo homem tem o sagrado direito de torcer pelo Vasco na arquibancada do Flamengo”; da imagem: “Se a lusofonia alguma vez teve humor a sério e sátira consistente, foi com Millôr Fernandes.” Avaliou o professor português Carlos Albino: “Apanhou Millôr o século XX, e no Brasil, onde, sempre acossado pela censura, por todas as censuras, fez com que o seu país tivesse sempre piada, piada universal pois o que o Millôr escrevia e observava se aplicava a todo o mundo, em cada uma das suas fábulas, em cada uma das suas frases. Ele recriava a língua constantemente, inventava a língua portuguesa por dentro da língua portuguesa. Merecia ter ganhado em vida um prêmio de lusofonia, um prêmio da língua de que foi cultor exigente. Era isso na escrita e no convívio. Mas nunca a lusofonia, cheia de premiados por rotatividade política conveniente e cheia de doutores honoris causa que fazem rir de tristeza, o reconheceu. E foi pena.”

 

 

Em Portugal, ainda hoje tratam de Millôr, como o grande matchmaker da relação de humor Brasil-Portugal. Para os lusos ler Millôr Fernandes hoje, em Portugal, é assunto sério, escreveu Ferreira Fernandes, cronista do português Diário de Notícias. “Esqueçam a Internet e o seu contrabando cultural – ela é inútil neste caso. A leitura de Millôr tem de ser presencial, como no tempo em que tudo era ao vivo. Ela implica fecharmo-nos numa sala com um bando de desconhecidos solitários num silêncio civilizado; mas antes disso é preciso deixar todo o mundo para trás e todos os pertences num cacifo, e depois disso é preciso esperar que um funcionário da Biblioteca Nacional erga uma barricada na nossa mesa com pesados volumes de jornais antigos. É um trabalho duro, engarrafar o riso diante de uma página de Millôr, mas lembre-se: todas as outras pessoas na sala de leitura estão a divertir-se menos do que você. Que o acesso a Millôr Fernandes seja exigente, como matéria preciosa deve ser, não surpreende. Que permaneça quase secreto não é punível por lei, mas devia ser. Até porque continua jovem.

 

Adaptado do texto “Mîllor Fernandes fez a língua portuguesa sambar”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 60