A lírica de Baudelaire

A ruptura entre poesia e prosa se tornou comum na construção de textos literários. Baudelaire soube evidenciar essa possibilidade e abrir caminho para a quebra de rigidez na escrita poética

Por Iran Ferreira de Melo* e Isabela Lapa Sila** | Adaptação web Caroline Svitras

“O maior exemplo da poesia moderna em qualquer língua”. Foi assim que T. S. Elliot se referiu ao parisiense Charles Baudelaire, autor de contundentes poemas que marcaram a França burguesa de Luís Felipe e que influenciaram grandes nomes da literatura ocidental. Ele foi, segundo muitos teóricos da literatura, o grande precursor da lírica moderna no século XIX. Com seus textos, nasceu o sentimento de uma exigência crítica na poesia europeia.

 

Para muitos, sua obra, marcada caracteristicamente pelo sarcasmo e morbidez, foi resultado de uma vida intensa de conturbações familiares. Ele foi uma criança e um adolescente complexado com vários dramas que ocorreram na sua vida. Na sua tenra infância, seu pai morreu e sua mãe, a quem tanto amava, casou-se novamente. O jovem Charles manteve um péssimo relacionamento com seu padrasto, o que lhe resultou num internato onde conviveu com a solidão e a tristeza.

 

Na angústia do claustro, Baudelaire visitou diversos autores, refugiando-se em contínuas leituras. A partir daí, reminiscente dos profundos universos literários que visitava, foi percebido pelo seu padrasto como uma ameaça à sua família. Por isso, este levou-o para morar na Índia como certeza de livrar-se do mal que poderia causar. Contudo, Baudelaire não chega a embarcar e volta para inquirir sobre a sua herança paterna. Passou, assim, a ter direito a esta, com a qual desfrutou, por muito tempo, prazeres supérfluos na noite boêmia do centro de Paris. Talvez, por toda essa experiência de vida, Charles Baudelaire tenha-se tornado a grande revolta na literatura de sua época, o que, até hoje, o faz reconhecido como um grande divisor de águas na forma de produzir poesia do século XIX.

 

Consta que sua postura quando adulto era a de um homem que impressionava pelas suas atitudes e expressões, atuando com atrevimento e sem vergonha de irritar a todas as pessoas com quem se relacionava. Ele propunha que cada um deveria expor-se para que, então, pudesse suscitar discussão sobre os diversos modos de se encarar a realidade.

 

O valor de um prefácio

 

Das suas obras, a de maior veemência foi um livro que compilava poemas seus escritos durante cinco anos e lançados em 1857, chamado Flores do Mal, trabalho julgado ofensivo à moral pública da época, o que lhe custou um processo judicial e consequentemente a sua interdição na Academia Francesa.

 

Em 1869, já depois de sua morte, seus textos foram contemplados com o lançamento de uma publicação intitulada Pequenos Poemas em Prosa. Essa obra póstuma foi organizada por Theódore de Banville e Charles Assenlincau, responsáveis legais dos textos de Charles Baudelaire. Posteriormente, o livro foi também lançado com o título de Le spleen de Paris, mas não se sabe ao certo qual era a opção real do autor, que sempre se mostrou hesitante na escolha de títulos para as suas obras. Muitos dos poemas em prosa compilados nesse livro já haviam sido publicados em periódicos da época e foram bem recebidos pela crítica e pelo público.

 

Unindo tendências simbolistas, parnasianas e românticas, Baudelaire é considerado o último dos românticos e o primeiro dos modernistas da sua época, tratando de contrastes existenciais acentuados na modernidade e influenciando uma enorme gama de artistas com seu estilo peculiar. Em se tratando dos poemas em prosa, que foram elaborados num período de dez anos, é considerado, juntamente com Aloysius Bertrand, o antecessor desse gênero literário, e Pequenos Poemas em Prosa está incluído na lista de obras-primas universais. O próprio autor revela a inspiração e o desejo por trás da elaboração desses textos numa carta a seu amigo Arsène Houssaye, também poeta e crítico de arte, contida numa das edições de seu livro, traduzida por Aurélio Buarque de Holanda:

 

Qual de nós, em seus dias de ambição, não sonham com o milagre de uma prosa poética, musical em ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante rica de contrastes para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência? É sobretudo da frequentação das grandes cidades, é do cruzamento de suas inúmeras relações que nasce este ideal obsessor.
(BAUDELAIRE, 1966, p.8)

 

Dentre os vários poemas em prosa desse livro, abordaremos o texto a seguir, “Espanquemos os pobres!”, e que analisaremos adiante.

Este texto é, de fato, uma prosa poética, um pequeno conto que, se lido por leigos em literatura, pode causar até certo distanciamento. Suas metáforas são, no mínimo, depredadoras de quietação, são catárticas exatamente para chamar a atenção de quem as lê, chamar a atenção para outra realidade. Os pobres, o mendigo, os demônios, Sócrates, são todos metáforas para afirmar que a literatura é o espaço de estender o imaginário e possibilitar a crítica ao real. “Espanquemos os pobres!” apresenta-se como uma contestação à convenção. Talvez, como muitos outros, seja provido de diversas reflexões feitas pelo autor durante seus exílios do mundo real — a experiência do internato e a leitura de vários universos retratam-se nas elucubrações representadas na obra.

 

É possível perceber, no primeiro parágrafo, a direção dada aos livros; afirma-se que eles causam a felicidade dos indivíduos que os leem e, desse modo, a construção do novo ocorre pela via da literatura. Os livros são representados como “empreendedores da felicidade pública”. Acredita-se que somente penetrando o universo deles, e fazendo-se penitentes do surreal, é possível mergulhar no afluente da própria sabedoria.

 

Numa abordagem crítica, poderíamos dizer que a leitura da relação entre os personagens desse texto perpassa o olhar que atribuímos às pessoas com diferentes tipos de letramento, ou seja, que medeiam diferentemente as suas relações sociais pela escrita. Essa é uma discussão altamente pertinente hoje no campo da educação linguística, e “Espanquemos os pobres!” pode propiciar um debate em torno disso.

 

Escrita contemporânea brasileira

 

Há, no texto, curiosamente, dois termos símiles que aparecem em parágrafos diferentes e que servem para desvendar representações metafóricas: “reis destronados”, no primeiro parágrafo, e “tronos” no quarto parágrafo. Diante disso, a imagem do mendigo é desencadeadora da metáfora-mor. Para Baudelaire, é improvável que os mendigos derrocassem tronos. Ora, eles são pobres. Mas de que tipo de pobreza o autor está falando?

 

Se os “reis destronados” são todos que invadem o universo do livro e, “confinados no intelecto”, transformam o real, o mendigo ou o pobre é aquele que não conhece o mistério do efeito de uma crítica sobre o real.

 

A transfiguração da realidade através da crítica é a proposição da literatura de Baudelaire, representada como o outro “Demônio”, que, igualmente aos preceitos filosóficos detidos na figura do “bom Demônio” de Sócrates, dá-nos a possibilidade de sermos loucos, ou seja, rompermos as fronteiras dos possíveis convencionais.

 

O narrador afirma, no sexto parágrafo, que, entre o “bom Demônio” de Sócrates e o seu também Demônio há a grande diferença de o primeiro se manifestar imperativamente e o segundo estrategicamente, a fim de seduzir-nos e levar-nos a conquista de um novo mundo.

Juventude e a literatura

 

A Filosofia com suas certezas forma um dos traços para a crítica do texto que aqui se discute. A postura sugestiva da literatura em detrimento do epistemológico na Filosofia leva Baudelaire a classificar Sócrates como pobre: “O pobre Sócrates não tinha mais que um demônio proibidor”.

 

Ao atracar-se com o mendigo, o narrador mostrou-se reagir ao comportamento medíocre do pobre e o despertou para outras atitudes. O modo como isso é descrito no texto pode suscitar significativa sensibilização e esta forma de Baudelaire o faz subversivo à estética literária da sua época, rendendo-lhe inúmeras críticas sobre sua lírica.

 

É válido também dizer que sua lírica neutralizava qualquer tentativa de personalização. A sua fala na poesia não é verdadeiramente sua, ela não provém do âmago baudelairiano; ela é sim, segundo ele mesmo, o canal do extra-humano pela via do intelecto.

 

Quanto ao pobre mendigo, é de tudo inusitado o que lhe aconteceu, outrora havia caído, porém levanta-se com “vigor (…) e olhar de ódio”, reagiu à reação contra a sua mediocridade de pobre e com a mesma violência atingiu quem o destronou da sua realidade. Afirma o narrador agora que o mendigo equipara-se a ele: crítico de si mesmo.

 

Veja como a arte atua na psique

 

A teoria de espancar aqueles que se rendem às convenções e ao ócio é a voz da literatura que, em sua dose de incômodo, ela “destrona reis” na tentativa de alargar os diversos possíveis. E Charles Baudelaire foi uma das bocas que articulou essa voz, permanente com uma exigência crítica sobre o que escreveu e para com quem iria ler. Esta obra resume, de fato, o pensamento de Baudelaire para o limiar da modernidade, concebendo a literatura não simplesmente como uma reação ao mundo, mas como a conquista de um novo mundo.

 

*Iran Ferreira de Melo é Professor de Linguística da Universidade Federal de Pernambuco.
**Isabela Lapa Sila é estudante do Bacharelado em Letras na Universidade Federal de Pernambuco.

Adaptado do texto A lírica de Baudelaire em “Espanquemos os pobres!”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 64