A linguagem de Frederico Barbosa em Contracorrente

Por Fabiano Fernandes Garcez* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Frederico Barbosa, poeta pernambucano radicado em São Paulo, é um dos nomes mais fortes da poesia nacional, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti: Nada feito Nada, 1993 e Brasibraseiro 2004, em parceria com Antonio Risério. É o próprio poeta que afirma, na orelha do livro Contracorrente de 2000, que sua busca centra-se na invenção e no rigor que parte da poesia de João Cabral de Melo Neto e da poesia Concreta.

 

Talvez o que definiria melhor Frederico Barbosa é sua luta em prol da poesia. Como diretor da Casas das Rosas, Fred entra em contato com todas as possibilidades de poesia contemporânea, não só a poesia inventiva pela qual é reverenciado pelos maiores críticos do país, mas também aquela poesia de cunho popular, regional ou, como preferem alguns, a poesia periférica, – produzida nas periferias de São Paulo.

 

O Eu Lírico

 

Fred registra os dias atuais por meio de uma rica elaboração da linguagem poética. Esse constructo linguístico/poético abala e é abalado pela linguagem de seu tempo, talvez seja esse o verdadeiro mérito de sua obra. Como afirma o poeta e crítico Octavio Paz, em O arco e a lira:

 

O poeta, por sua vez, atua de baixo para cima – da linguagem de sua comunidade à do poema. Em seguida, a obra volta às suas fontes e se torna objeto de comunhão. A relação entre poeta e seu povo é orgânica e espontânea.

 

É, justamente, a linguagem que atua de baixo para cima um dos pontos mais interessantes e instigantes como é percebido em Contracorrente, livro de 2000. Neste poema impera a linguagem coloquial, popular, prosaica, em um tom extremamente franco e direto, se valendo de um léxico material, Frederico Barbosa deixa o Olimpo da alta literatura, que por vezes foi cenário ou referência em sua obra precedente e assume uma postura urbana, mais precisamente: mundana, por valer-se de gírias ou de linguagem tribal.

 

A linguagem de Dostoiévski

 

É com esse “rebaixamento no tom” (Beleza ZL, retrô querendo-se moderna) também encontrado no poema Poesia e Porrada, além de outros do livro, que o Eu – lírico se municia para um contundente protesto contra sua própria produção poética (Minha poesia nada rala/que de ira se irrigava/secou/esquecida e rara) como também contra outras produções (Tédio recato tédio/nos versos alheios./E eu repetia falas sagradas/estante estéril/mote metralha). Valendo-se de um discurso confessional esses versos mostram o quanto a linguagem é cara ao Eu – lírico, também ao poeta, e como a necessidade de comunicação mais ampla coloca em xeque, não a forma experimental e criativa, mas o discurso que utiliza uma linguagem, por vezes, mais rebuscada, por outras, de referenciais da alta cultura por meio da citação de autores e obras clássicas da literatura, música, cinema ou arte plástica, como pode-se observar na seguinte estrofe do poema: Certa biblioteca pessoal de 1978, do livro Nada feito nada:

 

no mais nemirovich
gaivotas no cerejal
como queria tchecov
maiakóvski soprando
gorki lembrando
estudem, estudem!
dostoievski ou tolstoi?
tanto faz
tanto fez que
stanislavski
rouxinol seria cotovia?
mesmo mero, melhor homero
(tolstoi xingando)
morreu romeu e
marlowe comeu
manuscritos
na tumba.

 

O uso de uma linguagem e tom mais formal e registro elevado colocou a poesia de Frederico Barbosa em destaque no panteão da poesia contemporânea, porém nos versos de Poesia e porrada o eu-lírico volta-se reflexivamente para esse passado (dispenso a pose polida/e disparo petardos/incertas pedras/chutes feridas/de pé descalço) e opera uma transformação em sua produção poética, não só na linguagem, mas também no tom. Consequentemente, o eu-lírico renova-se, (Solto minha rocha em versos/pedras-de-raio/estrelas cadentes/chuva de meteoros indigestos./Porradas, vinde: voltei).

 

A poesia de Contracorrente continua sendo tão inventiva e contundente quanto a de seus trabalhos anteriores, porém ao se munir de uma linguagem mais coloquial, um léxico material e um tom próximo do popular, Frederico Barbosa dilui o repertório da alta cultura em seus versos sem precisar fazer referências explícitas, tornando, assim, seu texto mais rico em termos de significado. Já poemas com muitas referências e/ou citações acabam por ser exclusivos aos que conseguem interpretar essas “senhas”, pois quando o leitor decifra a intertextualidade implícita enriquece sua leitura e interpretação, porém é inegável o entendimento superficial do leitor que ignora essa intertextualidade. Em suma, Fred utiliza-se da linguagem coloquial a fim de promover a ampliação da carga significativa de seus poemas, oferecendo poesia de alto nível que produz como exercício democrático.

 

Por fim, é o coloquialismo do registro e da linguagem poética para atingir um público mais amplo, entre inúmeros outros aspectos da obra de Frederico Barbosa, um dos principais motivos de Contracorrente atingir e emocionar, como diria Gil, a gregos e baianos.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 52

Adaptado do texto “Da Alta e Baixa Linguagem da Qual se Mune o Poeta para um Cantar mais Democrático”

*Fabiano Fernandes Garcez é professor de língua portuguesa e autor dos livros Poesia se é que há (2008), Diálogos que ainda restam (2010) e Rastros para um testamento (2012). Foi jurado pela cidade de Guarulhos da fase municipal do Mapa Cultural Paulista – Edição 2009/2010 no quesito poesia. Blog: http://fabianofernandesgarcez.blogspot.com.br/