A leitura sob o olhar poético de Mario Quintana

Por José Neres* | Foto retirada da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Incansável e talentoso cultor da palavra certa no lugar certo, Quintana era conhecido por não se preocupar em acumular bens materiais, mas, ao mesmo tempo, por ter um enorme cuidado em cultivar um gigantesco legado literário, seja em forma de irretocáveis traduções de gênios da literatura universal, seja pela autoria de diversos livros, de milhares de versos e de pensamentos que poderão servir como mote para debates, questionamentos e reflexões durante séculos.

 

Com seu modo peculiar e aparentemente simples de tratar as palavras, o poeta gaúcho discutiu em seus poemas temas como morte, infância, velhice, felicidade, solidão e tantos outros que podem dar margens a inúmeros estudos. Entre esses temas abordados por Quintana, está também o da leitura. Ele, cidadão visceralmente ligado ao mundo das palavras, mas sem perder o foco e o interesse pelos problemas do dia a dia, tinha a certeza de que a leitura é uma porta aberta não apenas para as páginas do livro, mas também para o contato com um mundo que se descortina por trás das palavras.

 

No poema “O que acontece com as crianças”, Quintana, além de remeter à própria infância e aos primeiros contatos com os livros, com o grau de encantamento que acolhia o leitor iniciante, aproveitou para criticar a forma como as obras eram produzidas e apresentadas ao público infantil. O poeta também associa o ato constante da leitura à condição para tornar-se também produtor de textos escritos. Mesmo que hoje em dia algumas pessoas discordem desse ponto de vista, é importante observar como há cerca de quatro décadas (o poema foi publicado inicialmente em 1973, no Caderno H), o tema da formação de leitores já era uma preocupação para os formadores de opinião.

 

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Para Quintana, os grandes escritores e as grandes obras devem ser tratados como verdadeiros monumentos e, reiterando a ideia de que se deve ler o autor, e não apenas sobre o autor, com a ironia que lhe era peculiar, ele escreveu um hipotético Projeto de Lei que dizia que:

 

“Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.” (p. 293)

 

Os escritores que abusam do vernáculo utilizando palavras difíceis em seus textos são outro alvo das críticas irônicas de Mario Quintana. Em sua opinião, a relação entre texto e leitor não deveria ter como obstáculos palavras que serviriam apenas para demonstrar a erudição do autor. No poema O Trágico Acidente da Leitura, o eu lírico fala de sua experiência como leitor e do tormento de ter à sua frente uma palavra desconhecida. É possível perceber, nas entrelinhas de diversos poemas do autor gaúcho, que não se tratava de buscar apenas facilidades nos textos, mas sim de não concordar com o uso de palavras que desestimulassem o leitor e que não o desafiassem na busca de significados e de sentidos dentro de um texto e não o incitassem à aprendizagem. Ou seja, Quintana não era contra a riqueza vocabular dos escritores, mas sim contra a ostentação vazia dessa erudição.

 

O poeta considera também que os leitores têm certa responsabilidade sobre uma hipotética idolatria pelos autores que escrevem de modo rebuscado. Possivelmente ele considerava que a pouca prática de leitura, a formação deficiente e o já comentando apego à televisão fizessem com que o público leitor não soubesse distinguir talento de verbosidade. Para ele: “O público ledor é tímido: confunde altissonância com gênio” (p. 277).

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A instituição escolar e seus atores também são lembrados pelo poeta como responsáveis pela pouca proficiência na leitura. Além da família e dos professores, já citados anteriormente, ele também lembra que a monotonia das aulas pode ser um entrave no desenvolvimento da leitura. As exaustivas repetições sem novidades levariam os alunos à digressão e a uma viagem ao mundo da imaginação em busca de algo diferente:

 

“De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o azul convida os meninos, as nuvens desenrolam-se, lentas, como quem vai inventando preguiçosamente uma história sem fim… sem fim é a aula: e nada acontece, nada… bocejos e moscas. Se ao menos, pensa Margarida, se ao menos um avião entrasse por uma janela e saísse pela outra.” (p.182)

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 55

Adaptado do texto “A leitura pelo olhar poético de Mario Quintana”

*Mestre em Educação pela Universidade Católica de Brasília, especialista em Literatura Brasileira pela PUC-MG, graduado em Letras pela Universidade Federal do Maranhão. Professor de literatura da UFMA, Faculdade Atenas Maranhense e Faculdade Santa Fé.