A Independência com ou sem grito

Por Bárbara Diniz | Adaptação web Caroline Svitras

Estudante e apaixonada por História, Bárbara Diniz Gonçalves, descreve os acontecimentos históricos de um ponto de vista poético, amenizando o caráter pesado da contextualização dos fatos e períodos da história. O estilo de escrita aponta para uma forma diferente de abordar temas que são considerados cansativos para o leitor inexperiente que não cultiva o hábito da leitura. (N. E.)

 

Entre os trapos e farrapos da neblina que se levantava no Ipiranga, descortinava-se o galope da guarda e da comitiva de Dom Pedro; galope picado e sem nobreza daquele nobre de espada embainhada e olhos marejados dos ecos do oceano que o separava das terras lusitanas. Terras mergulhadas em horror e em ruínas, de onde chegavam contínuas ordens que continuamente desenhavam uma abstrata encruzilhada. Ele decidira não voltar a Portugal. Trocara a terra de Camões pelo sol tropical e pela paisagem que um viajante descreveu, em 1813, como a “mais deslumbrante que talvez haja no mundo”. Tal bonita paisagem, porém, via-se ameaçada pela agitação tempestiva que o nobre precisava desbancar. Leopoldina, sempre dedicada ao marido, implorava por uma decisão: “Pedro, o Brasil está como um vulcão”. Um vulcão cuja intensidade dos estragos estava em suas mãos. Ser ou não ser o futuro monarca das terras cordiais?

 

Monarquia. Era esta uma das duas possibilidades existentes para o futuro do Brasil. Ela ou uma república, nos moldes de nossos vizinhos, entre eles o Chile e a Colômbia. As elites econômicas não aceitariam perder os privilégios que haviam conseguido anos antes, com o estabelecimento da família real nas nossas terras que um dia foram coloniais. Diante de abalos externos e internos, o famoso Dia do Fico, a 9 de janeiro de 1822, marcou uma possível afirmação de autoridade. Mas não adiantaria abafar as crises com medidas de água morna; todos demandavam uma resolução definitiva. Difícil resolução.

 

Sólidas dificuldades estavam também nas encruzilhadas concretas do caminho traçado sem vivas, glórias ou estandartes em busca dos enviados de José Bonifácio, este que vinha sendo quase um baluarte. A precária estrada conduzia a comitiva por entre caminhos tão tortuosos quanto os rumos políticos. Mal- estar. Os remédios caseiros não foram suficientes. Indigestão. Em meio a oscilações físicas e emocionais, os homens se contorciam de dor por causa de um almoço apimentado. Por uma trivialidade, gemiam. Mas Pedro não esquecera a que viera: colocar as coisas em ordem e afirmar-se. Assim, além das dores de barriga, ele carregava por todo o percurso um fogo no peito, brasa abafada que insistia em não se apagar.

 

A emancipação ocorreria de uma forma ou de outra — não era isso o que lhe falava a devotada Leopoldina? —, e o nobre estava como árvore prestes a ser arrancada. Desenraizado, quase perdendo o ar, ouvia os ecos interiores dos conselhos do Bonifácio: “o quanto antes, decida-se!”. Decidia-se, desterrado e plantado em novas terras. E a brasa subia para a face com a raiva, teimando em colorir de vermelho sanguíneo a expressão daquele que se fez primeiro imperador do Brasil. Não o desprezariam mais. Veriam do que ele era capaz.

 

E viram. As relações com Portugal, enfim, romperam-se. A historiadora Mary Del Priore no livro A Carne e o Sangue narrou uma das versões do fato: “D. Pedro caminhou alguns passos (…) em direção aos animais, que se achavam à beira da estrada. Estancou no meio da estrada, dizendo: ‘As cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de ‘rapazinho’ e ‘brasileiro’. Pois verão o quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações. Nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal’. Gritando vivas ao Brasil independente e ao príncipe, a guarda e a comitiva viram D. Pedro desembainhar a espada. Todos tiraram seus chapéus e ouviram do príncipe: ‘Pelo meu sangue, pela minha honra, juro fazer a liberdade e a separação do Brasil’.”

 

E a notícia cheia de honra correu numa velocidade ainda maior que os cavalos da comitiva. Os sinos da Igreja de Nossa Senhora de Boa Morte bimbalhavam em comemoração. Logo, outros sinos repicaram em resposta: o da Igreja da Sé, do Carmo, de São Gonçalo, de Santa Ifigênia. Mandou-se que a famosa frase “independência ou morte” fosse fundida em ouro; preparou-se uma grande festa colorida pelo verde dos Bragança e pelo amarelo dos Habsburgo. Encheu-se de gente brasileira e de indivíduos da comitiva um teatro sem grandes ornamentos: o Teatro da Ópera, que mais parecia uma casa comum, mas que, naquele dia, ganhava aclamados ares de realeza.

 

Ares de monarquia. A monarquia dos trópicos e entre repúblicas. Era geral o entusiasmo e a felicidade. Del Priore revela o registro de um jornal da época, O Espelho. Segundo ele, era aquele o “dia suspirado”, com cenas tão emotivas que se faziam capazes de “despertar sentimentos de alvoroço na alma mais tíbia”. Tudo como se as trevas e a escuridão tivessem sido afugentadas e dessem lugar à esplêndida luz da liberdade. Esplêndida, sim. Mas longe de ter sido amplamente conquistada, como tais reações e emoções faziam crer. A nação autônoma e livre nascia, paradoxalmente, presa a algemas econômicas, políticas, sociais. Algemas das quais nós ainda não nos livramos completamente. Pelo nosso sangue e honra, eis, assim, a conquista da liberdade: sempre e, ainda hoje, tardia.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 58

Adaptado do texto “Vastidões e misérias das rupturas: A Independência com ou sem grito”