A importância do elogio na aprendizagem

Por Sandra Bozza* | Foto: 123 Ref | Adaptação web Caroline Svitras

O teórico Philippe Meirieu, há muito, postulou quatro princípios educacionais que, creio com afinco, dariam conta de uma educação de qualidade. Nesse espaço, proponho a reflexão sobre um deles, pautada na carta que acabei de receber de um homem que, há mais de dez anos foi meu aluno de sexta série. É o princípio da Aceitabilidade, que comporta os atos didáticos de perceber os interesses presentes dos alunos, respeitar suas aquisições anteriores e compreender suas estratégias pessoais de aprendizagem.

 

O teor de tal carta é a surpresa e a gratidão e ele, ainda, enfatiza o poder do elogio, que, narra, só lembrava-se de ter recebido um (meu) em toda a sua vida escolar até reconhecerem que ele produziu um bom texto nessas avaliações que a chance de empregabilidade nos coloca.

 

Aceitar as coisas e as pessoas como elas são não é tarefa fácil e isso, na escola, é ainda mais árduo. Recebemos, por turma, 35 ou 40 alunos por ano e, por isso mesmo, temos à nossa frente o idêntico número zonas de desenvolvimento real, no conceito de Vygostsky. Cada sujeito com sua história, cada inteligência forjada segundo o fogo do grupo social onde cresceu, cada emoção resultante de tudo isso. Como esperar que todos possuam as mesmas competências e habilidades, ainda que tenham cursado os anos escolares com certo êxito?

 

Apropriar-se de novos saberes requer base referencial de conhecimento, ou seja, é preciso saber realizar algo sozinho para que outros fazeres mais complexos sejam desenvolvidos e ampliados. Assim sucessivamente…

A ética do fazer pedagógico

 

Na instituição Escola, algumas vezes, em nome do planejamento de cada série/etapa, acaba tornando-se rara a preocupação com o aquilo que o sujeito já possui. Nossa atenção se volta para o que precisamos trabalhar, muitas vezes ignorando grande parte dos conhecimentos já apropriados individualmente.

 

Desenvolver esse olhar exige discernimento, compromisso e, sobretudo, conhecimento aprofundado na área que se deseja que todos aprendam. Ansiar pela ampliação da apropriação de conhecimentos de todos implica, acima de tudo, ter consciência do ponto em que cada um se encontra. Só isso, e não mais do que isso, seria o suficiente para que pudéssemos mediar com competência o processo de aprendizagem.

 

 

Esclarecida essa questão, cabe refletir sobre a questão da compreensão, da aceitação e, em última instância, do elogio, citado pelo Renato da referida carta do início desse texto.

 

O que o Renato denomina elogio eu conceituo como o reconhecimento da sua situação relativa aos seus saberes naquele momento e às potencialidades que aqueles conhecimentos vislumbravam. Em outras palavras: apenas valorizei o que ele dominava porque isso me possibilitava fazê-lo compreender questões mais profundas sobre o mesmo assunto.

 

A minha postura foi apenas de aceitação, mas para esse aluno soou como acolhimento e respeito, que gerou a possibilidade de consolidação do vínculo afetivo e o fortalecimento da confiança nele, aumentando, assim, sua autoestima.

 

Milhares de professores agem dessa forma e conseguem resultados exitosos tendo ou não clareza desses aspectos. Eles simplesmente acreditam, cientes ou não, em outro princípio de Meirieu, o da educabilidade. Mas isso é tema para reflexões posteriores.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 61

Adaptado do texto “O poder do elogio ou o princípio da aceitabilidade”

*Sandra Bozza é linguista, professora de Metodologia do Ensino da Língua Escrita, na Pós- Graduação da Universidade Positivo, Professora de Literatura Infantil, na FATUM, autora de livros técnicos e didáticos na área.