A importância do brincar

O cinema brasileiro vive um momento muito importante, com inúmeros incentivos financeiros e legais do governo federal, para que os bons filmes nacionais cheguem às salas de aula e às casas de professores e alunos

Por Myriam Chinalli* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O cinema é, certamente, uma das formas de expressão artística mais completas, por utilizar recursos da literatura, das artes plásticas, da arquitetura, da educação. O filme Tarja branca – A revolução que faltava é um exemplo disso, mostrando ao espectador, de forma simples mas instigante, que brincar não é apenas importante para a criança, sendo fundamental em qualquer idade.

 

Entrevistando diversos adultos de diferentes idades e origens, o filme explora a temática da brincadeira com seriedade. O diretor Cacau Rhoden deu voz a personagens interessantes – dançarino, escritor, ator, psicanalista, feirante, DJ, advogado, artista plástico, músico. Alguns trazem visão bastante teórica a respeito do ato de brincar. Outros deixam apenas as lembranças desabrocharem para levá-los de volta à infância.

 

O título do filme, inclusive, é baseado na fala de um dos mais curiosos personagens do filme: Hélio Leites, artista com roupas vibrantes, óculos de plástico enormes e uma cabeleira extravagante. Ao contrário dos remédios “tarja preta”, a “tarja branca” é o sentimento da brincadeira, “um santo remédio”, segundo ele.

 

O documentário inicia acentuando a necessidade do tempo de brincar para a criançada e as lembranças dos adultos entrevistados a respeito desse momento lúdico em suas vidas. Em seguida, se volta ao lugar do brincar na vida dos adultos. Por fim, apresenta a cultura popular brasileira, com adultos que se fantasiam em festas de grande tradição em vários estados brasileiros, em que cantam e dançam. Aí entram o carnaval, o maracatu e outras representações da cultura do País.

 

Em 1938, a obra Homo Ludens, de Johan Huizinga já demonstrou que, nas raízes do homem, está o gosto de se relacionar com o acaso, com o imponderável. Ele argumentou que o homem é “dado a brincar”. No entanto, acabou concluindo que o homem lúdico, que floresceu até o século XVIII, entrou depois em declínio.

 

Diversos seguidores de Freud (criador da psicanálise) se dedicaram a estudar a brincadeira e as fantasias infantis, trazendo-as para os consultórios no trabalho com crianças. Para Bruno Bettelheim, por exemplo, a brincadeira é tão importante no desenvolvimento da criança, que sem ela o intelecto não se desenvolveria, pois a brincadeira possui funções cognitivas e pulsionais. A grande contribuição da brincadeira na sua relação com a cultura é a capacidade da criança de aprender a não desistir aos primeiros sinais de fracasso, tentar e tentar novamente. Ou seja, Bettelheim via, na perseverança e no esforço, possibilidades de aprendizado cultural.

 

O interesse de Betelheim por jogos e brincadeiras também se deu por acreditar que possibilitavam à criança a sublimação de suas pulsões agressivas no meio cultural, principalmente no pós-Segunda Guerra.

 

 

Outro psicanalista, Donald Winnicott, desenvolveu uma teoria do desenvolvimento humano baseada na criatividade e no encontro do indivíduo com sua realidade cultural, não como sublimação (como afirmava Betelheim), mas como processo de desinvestimento narcísico, em direção à cultura.

 

Segundo Winnicott, o desenvolvimento “normal” seria constituído pelas seguintes fases: a) a inauguração dos fenômenos transicionais, com a utilização de um objeto transicional; b) o início do brincar; c) o brincar compartilhado; d) a experiência cultural, com o indivíduo investindo e compartilhando as conquistas de sua cultura.Os bons depoimentos do documentário Tarja branca têm tudo para gerar muitas conversas no acender das luzes, seja no cinema, na sala de aula, entre amigos ou familiares.

 

*Myriam Chinalli é psicanalista, autora de A camisa amarela da seleção brasileira, Editora Gaivota, entre outros títulos. E-mail: chinallim@uol.com.br

Adaptado do texto “O cinema brasileiro, a brincadeira e a psicanálise”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 56