A identidade do Rei Arthur

A tradição oral legou gerações com histórias que sobreviveram a despeito da falta de registros escritos e provas históricas. É extraordinário como, ainda assim, o ciclo arturiano sobrevive à passagem das eras, atravessa as fronteiras entre países e desafia historiadores quanto à autenticidade e validade desse mito essencial à matéria Bretanha

Por Adilson de Carvalho Santos* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Fato ou lenda, as histórias perpetuadas se fixaram no imaginário universal criando fiéis admiradores de sucessivas interpretações e reinterpretações, baseadas em arquétipos: o herói profetizado, uma espada mágica forjada por seres místicos, magos e feiticeiras, duelos de cavaleiros e amores impossíveis. Assim, conhecemos a Távola Redonda, o reino de Camelot e o Rei Arthur.

 

Em busca do Arthur real

Uma das grandes dificuldades para comprovar a existência do Rei Arthur é a insuficiência de fontes históricas acerca do período no qual o monarca teria vivido, supostamente entre o final do século V e início do século VI. O Annales Cambriae, um dos mais antigos textos medievais, escrito em latim no final do século X, menciona o nome de Arthur liderando os bretões contra invasores anglo-saxões na batalha do Monte Badon entre 516 e 518. Outra referência aponta a batalha de Camlann, cerca de vinte anos depois, na qual Arthur enfrenta seu filho Morderet levando à morte de ambos. A Historia Brittonum, datada do século IX e atribuída ao monge galês Nênio, é outro registro de histórias célticas que envolvem Arthur e seus feitos, embora tudo seja muito incerto por faltar datas e referências mais detalhadas capazes de estabelecer dados mais concretos. Muitos manuscritos que restaram trazem dados muito vagos que os historiadores refutam, ainda que sejam encontradas pinturas e tapeçarias que apontam a existência desse lendário rei.

 

Foi o galês Geoffrey de Monmouth, um dos autores mais importantes a registrar o nome de Arthur em seu compêndio ‘História dos Reis da Bretanha’ (Historia Regum Britanniae), escrito na primeira metade do século XII, mas narrando fatos que teriam supostamente ocorrido no século V ou VI, quando os bretões enfrentavam constantes invasões de povos anglo-saxões. Do período descrito não há documentos escritos que autentiquem os fatos e os personagens envolvidos, já que a tradição da época era a transmissão oral de geração para geração. Poemas foram cantados por trovadores e muitas versões conflitantes coexistiam, dificultando a comprovação de um Arthur real ao passo que reforçavam a figura do mito, cuja jornada teve vários elementos adicionados ao longo do tempo, criando um ciclo de histórias de difícil precisão histórica. No século IX, por exemplo, o nome Arthur de Dux Bellorum é encontrado como um líder militar e não como um rei que se sagra vencedor na batalha do Monte Badon, na qual liderou os celtas contra inimigos, tendo matado cerca de 160 deles de uma vez só. O Arthur que surge no registro de Monmouth é sobrinho de Ambrosius Aurelianus, general romano que venceu os anglo-saxões no século V. O autor também menciona Uther Pendragon, o pai de Arthur, e a figura do ancião Merlin, ou Myrddin, que tinha o dom da profecia.

 

A literatura arturiana

Mallory, cuja real identidade foi fruto de investigação, escreveu ‘A Morte de Arthur’ quando estava cumprindo pena na prisão por envolvimento em intrigas políticas e morreu em cárcere 14 anos antes da primeira publicação de seu livro, um dos primeiros impressos na Inglaterra. Várias passagens da história foram interpretações que Mallory deu para os eventos e personagens envolvidos, conforme por ele coletados. Foi a primeira vez que a lenda foi narrada em prosa, e a última publicada na era medieval. Seu relato foca mais na irmandade dos cavaleiros, seguindo uma ordem cronológica, e terminando com a queda de Camelot causada pelo adultério da rainha Guinevere, que tem Lancelot como seu amante. Os inimigos de Arthur usam isso para desmoralizar o rei, enfraquecê-lo emocionalmente e levar a Bretanha à guerra.

 

Durante um longo tempo, o texto de Mallory ficou sendo a referência mais completa acerca do ciclo, base para o mito que se firmou no imaginário inglês como inspiração. Durante a Segunda Guerra, a resistência de Arthur contra os anglo saxões serviu de modelo de virtude para os ingleses que resistiam aos ataques nazistas. Guerreiro ou rei, Arthur já foi representado em peças de tapeçaria, pinturas, numa escultura exposta na Igreja da Corte em Innstruck, na Áustria, e uma região montanhosa em Edimburgo, na Escócia foi batizada de ‘O assento de Arthur’. No século XIX, o poeta inglês Alfred Tennyson (1809 – 1892) escreveu ‘Os Idílios do Rei’ (Idylls of the King), dividido em doze poemas dedicados a vários personagens do ciclo, sendo a figura de Arhur constante em todos. Em 1903, o ilustrador e escritor norte-americano Howard Pyle usou seu talento de combinar imagens e palavras para contar sua própria versão das aventuras de Arthur na Bretanha medieval, mas voltada para o público infanto-juvenil. Iniciando com The Story of King Arthur and His Knights, se seguiram mais três livros publicados entre 1903 e 1909, nos quais o autor reimaginou muita coisa, como um romance entre Merlin e Vivian, a dama do lago. No final dos anos 1930, o escritor inglês T.H. White (1906/1964) reconta a história em The Once and Future King, desenvolvido em cinco livros ‘A Espada na Pedra’ (1938), ‘A Rainha do Ar e das Sombras’ (1939), ‘O Cavaleiro Imperfeito’ (1940), ‘A Chama ao Vento’ (1958) e o póstumo ‘O Livro de Merlin’ (1977). White retrata a infância e a educação de Arthur, chamado de Wart pelo autor, até a queda de Camelot. A escritora britânica Mary Stewart (1916-2014) escreveu uma pentalogia arturiana centrada na figura de Merlin, o narrador da história, começando com ‘A Caverna de Cristal’ (The Cave Crystal) em 1970, e terminando em 1995. Merlin é retratado não como um druida, filho do demônio, mas como o filho de Ambrosius Aureliano, irmão de Uther, com uma princesa e, logo, o herdeiro legítimo do trono da Bretanha. Stewart estreita a relação entre Arthur e Merlin, reduz o papel de Morgana na história e faz de Morgause a mãe de Mordred.

 

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Adaptado do texto “Arthur: rei do passado e do futuro”

*Adilson de Carvalho Santos é Professor licenciado em Inglês e respectivas literaturas pela UERJ e licenciado em Português e Literatura pela UNIGRANRIO. Autor de artigos sobre cinema e adaptações literárias em blogcineonline.wordpress.com.