A Homossexualidade Feminina no Teatro de Coelho Neto

Por  José Neres* e Maria Alice Gomes Moraes** | Adaptação web Caroline Svitras

Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias-MA, 1864 – Rio de Janeiro, 1934), é um daqueles escritores que conheceram o sucesso e depois caíram no esquecimento. De sua vasta obra – mais de uma centena de títulos – poucos livros são reeditados e estudados. Quando é lembrado, o escritor maranhense é quase sempre colocado apenas como romancista e contista. No entanto, sua produção literária é marcada pela imersão em outros gêneros literários, como a poesia e o teatro.

 

O teatro de Coelho Neto não é revolucionário e mantém os valores tradicionais. Ele não contestou a forma do teatro, mas sim deu continuidade a uma tradição histórica, principalmente o drama e a comédia de costume. Também não se filiou a nenhuma das estéticas literárias vigentes em seu tempo, no entanto em sua obra é possível detectar uma síntese continuadora dessas tendências. Coelho Neto reflete, de maneira formal e do ponto de vista de conteúdo, um momento de eclosão que antecede o Modernismo Brasileiro.

 

No entanto uma de suas peças chama a atenção por tratar de uma temática bastante delicada para os padrões da época. E é sobre essa obra pouco conhecida do escritor maranhense que iremos tratar a partir de agora.

 

A peça teatral Patinho Torto ou Os Mistérios do Sexo foi, segundo informações da pesquisadora Cláudia Braga, escrita entre o final de 1917 e o início de 1918, mas só foi editada em 1924 e teve sua primeira representação cênica em 1964. Dividida em três atos, a peça traz a história de Eufêmia, uma jovem de 18 anos, que tem personalidade forte e que está prestes a casar-se com Bibi, filho se seu padrinho. No entanto, ela não se adapta aos padrões impostos pela sociedade da época e oferece resistência à realização do casamento. Vinda de uma família tradicional do Rio de Janeiro do início do século XX, Eufêmia é constantemente chamada a atenção por conta de seu comportamento tido como inadequado para uma mulher daquela do início daquele século. No lugar da tão esperada meiguice feminina, ela responde agressivamente aos carinhos do noivo, joga futebol, tenta fazer a barba, tem o sonho de ir à guerra e se refere às próprias vestes como “um envelope de cartas trocadas”.

 

Logo em sua primeira participação na peça, ela já demonstra uma relação conflituosa com Clemente – seu padrinho – e com todas as demais personagens. Ao entrar em cena fumando, ela desafia os costumes da época. Revoltado e chocado ao mesmo tempo, Clemente, ao discutir asperamente com a afilhada diz que aquelas atitudes de independência feminina são na verdade tentativas de contrariar a própria natureza.

 

Em uma atitude que lembra o padrão cientificista do naturalismo, contudo carregada de ironia, desde a escolha lexical do nome do médico, entra em cena a figura do Doutor Patureba, com quem Eufêmia conversa longamente. A partir desse episódio, Eufêmia passa a trajar-se como homem. Interessante notar que Bibi, o noivo, mesmo triste e em estado de choque, parece conformado e aceita a ideia de que a noiva é agora um homem.

 

Ao voltar para casa, vestida em trajes masculinos e com gestos também masculinizados, Eufêmia causa perplexidade em todos os presentes. Quando é questionada pela mãe sobre sua insistência em “ir contra a natureza”, a protagonista afirma que sempre fora assim, mas que só a partir daquele momento ela (ele) podia sentir-se livre, como se durante toda a sua vida estivesse dentro de uma forma que não era a sua. Na busca de culpados pelo fato, a família acusa Bibi, o ex-noivo, de não saber conquistar a garota enquanto podia. Como a ideia do casamento ainda permeava a família, a solução encontrada por Clemente para manter as aparências foi casar Eufêmia com sua melhor amiga, Iracema. Mas isso cria um novo impasse, pois Iracema encontra-se enamorada por um farmacêutico da cidade. Mesmo assim, a moça aceita pensar na proposta. No entanto, Eufêmia se recusa a pensar nessa hipótese, pois ela (ele) precisa acostumar-se a viver com a forma na qual foi moldada.

 

Coelho Neto “operando” Artur de Azevedo, numa encenação que imita o quadro ‘Lição de Anatomia’ de Rembrandt – com Olavo Bilac (que assina a foto), entre outros intelectuais que formaram o grupo que viria a fundar a ABL.

 

Mesmo sem levantar bandeira de luta pelas causas feministas ou pela liberdade sexual de homens e mulheres, essa personagem criada por Coelho Neto reflete alguns dos ideais do novo modelo de mulher que começou a ganhar forças no início do século XX. Suas atitudes e opiniões contrastam com os arquétipos de mulher que se tinha naquele momento da História do Brasil, principalmente no que se refere à sexualidade e às obrigações sociais da mulher naquele cenário histórico, em que progresso, é, nas palavras da personagem Custódia:

 

Progresso é uma moça saber tomar conta da casa, cerzir uma meia, pregar um botão, temperar uma panela. (…) Eu não sou americana, mas mando chegar a mais pintada. De que serve saber jogar peteca com uma pá de barbante e não entender de um refogado. Você come peteca? Não. Pois é… Eu hei de ver. Minha mãe, era uma dona-de-casa que fazia gosto e não falava francês, não batucava em piano e nunca se importou com bolas. Eu fui criada no mesmo regime.

 

Sendo um escritor de sutilezas, Coelho Neto, propositalmente organiza os desejos, rupturas e conquistas de Eufêmia em três atos que se completam.

 

Suely Franco com Emilio de Biasi em Patinho Torto 1964), sob a direção de Antonio Ghigoneto.

Após a consulta com o médico Felismino Patureba, há o momento de ruptura. Seus pedidos e suas atitudes já são suficientes para desestabilizar a estrutura social tradicional. Ao voltar do consultório, Eufêmia apresenta outro semblante, com voz firme e postura convicta de quem tem noção da amplitude e das dimensões de seus atos. Nesse momento, ela rompe com o paradigma feminino então vigente e assume uma nova identidade sexual, rompendo com os valores que sua mãe e padrinho tanto zelam, além de romper com o noivo, que agora se contrapõe ao novo papel assumido.

 

Finalmente, há o momento das conquistas. Ela (ele) se despede do alfaiate que foi contratado para renovar seu guarda-roupa e solta um grito de liberdade após a saída do profissional. Agora, seu empenho passa ser o de aprender um pouco mais sobre o comportamento masculino e mostrar para sua mãe que as transformações foram positivas e que os negócios da família agora podem ser tocados com pulso firme.

 

Ao construir a personagem Eufêmia, Coelho Neto vai de encontro a uma sociedade preconceituosa e que se preocupa apenas com respostas pré-concebidas. Eufêmia é despojada do romantismo que se prende às pequenas coisas. Ela é forte, corajosa e não se intimida com os argumentos tradicionais de sua família, e se mostra disposta a assumir as consequências da sua atitude em busca de liberdade.

 

A peça, e também outras obras do autor, mostra que Coelho Neto não é um mero escritor do passado, mas sim que era um homem com um olhar além de seu tempo e que pode ser lido sem preconceitos.

 

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Fotos: Conhecimento Prático – Literatura Ed. 56

*Mestre em Educação pela Universidade Católica de Brasília. Professor da Faculdade Atenas Maranhense e da Faculdade Santa Fé.

**Graduada em Letras e Especialista em Língua e Literatura, pela Faculdade Atenas Maranhense. Professora da rede particular de ensino.

Adaptado do texto “Patinho Torto”