A guerra íntima de um intelectual: Mário de Andrade e a Revolução de 1932

Um episódio pouco divulgado da vida de Mário de Andrade é a sua participação na Revolução Constitucionalista de 1932 por meio do Jornal das Trincheiras

Por Rodrigo Ruiz* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Terá o levante da noite de 9 de julho de 1932, iniciado na capital paulista, surpreendido Mário de Andrade? É bem provável que, arguto observador que era, Mário se deu conta do que estaria por vir após algumas manifestações cívicas naquele ano. E veio mesmo. É de se imaginar que, na madrugada de uma Piratininga molhada pela garoa fria e insistente, o sono do escritor teria sido interrompido por algum telefonema lhe informando “as novas” ou mesmo, logo cedinho, no preguiçoso domingo, ver a incomum movimentação que a partir do centro se expandiu para os bairros, contagiando a população, congregando interesses patrióticos ou meramente políticos.

 

Mário não era, absolutamente, um homem indiferente aos acontecimentos. Prova disso são suas cartas, seus textos publicados na imprensa da época nos quais comenta com aquela profundidade dos privilegiados a marcha dos acontecimentos. Não era uma sibila, tampouco uma Cassandra a anunciar desgraças, era apenas um paulistano enxergando com agudeza de interpretação a cascata de fatos que desembocaram num conflito cívico-militar, o maior em terras brasileiras no século 20. E o turbilhão levou o autor de Amar, Verbo Intransitivo de roldão, levou-o ao abraço fraterno em sua terra rebelada. Ele, um pacifista por natureza, foi de encontro à guerra.

 

 

 

A exigência de uma nova Constituição

No círculo familiar e de amizades, será incentivado a tomar partido da causa, algo que não lhe seria de todo indiferente, afinal, amava São Paulo e como tantos, lhe causava certa angústia o desconforto gerado pelo governo Vargas, considerado discricionário pela insatisfação paulista. Essa era a causa primeira da revolta que parava o estado, congregando-o em torno de uma bandeira democrática, uma cruzada libertadora. A exigência de uma nova constituição era a pedra de toque do movimento iniciado em 9 de julho. Apontada por uns como uma iniciativa da oligarquia cafeicultora, despeitada pelas perdas políticas advindas da Revolução de 1930, exaltada por outros como uma legítima manifestação de cunho democrático, o certo é que a Revolução Constitucionalista de 1932 ainda desperta preconceito e admiração. Parece que suas trincheiras, de ambos os lados, não se esvaziaram com o armistício.

 

“Tudo por São Paulo”

Num momento em que a tomada de posição, tanto no front quanto na retaguarda, era urgente, Mário de Andrade sentiu-se impelido a dar seu contributo à causa e da melhor forma que poderia: escrevendo. “Tudo por São Paulo” era a palavra de ordem, o lema que bastava para convencer indecisos, animar os tímidos e mobilizar uma massa de gente trabalhadora. Como o próprio escritor iria declarar, o lema era a única unanimidade na sua Pauliceia Desvairada. Nos 82 dias de conflito armado, a máquina de escrever de Mário era sua metralhadora, cada toque era a bala amiga dos que se batiam nas trincheiras paulistas.

 

Como meio de informação do paulista afundado numa vala qualquer ao longo das fronteiras do Estado surge o Jornal das Trincheiras, um veículo de mobilização e propaganda ideológica dos “soldados da lei”, no convencimento da nobreza da causa esposada por São Paulo. Esse órgão oficial da Liga de Defesa Paulista contará com a participação de Mário. Ele escreve, embora anonimamente, atitude comum entre os colaboradores do jornalzinho que terá, ao todo, treze edições durante o conflito. A questão que se apresenta é: até que ponto o autor, pacifista como foi dito ser, sentiu-se à vontade em escrever, no calor do conflito, loas à guerra, comentando adesões de voluntários, notícias vindas das frentes de combate no Estado? Estava mesmo imbuído da alta carga moral que sacudia sua terra, magoada e despeitada pela indiferença de Getúlio Vargas e de seus tenentes interventores?

 

“Não é possível a gente imaginar democracia sem opinião pública, assim como não é possível liberdade de pensamento sem aquisição duma técnica de pensar, coisa muito menos frequente do que se pode supor.”

 

O que se sabe é que Mário, sentindo-se disposto ao serviço da causa constitucionalista, mas confuso quanto ao que fazer, encontra no esforço de guerra da retaguarda o sentido de utilidade exigido pelo momento, como ele revela:

 

“Minha vida se passa, aliás, nos trabalhos da Liga de Defesa Paulista, pra onde os amigos me mobilizaram. E graças a Deus, porque o início da guerra me deixou meio tonto, sem saber que destino tomar pra ter alguma utilidade. Agora, tenho consciência que trabalho, que sou de alguma forma útil, embora minha utilidade nem de longe se compare com o maravilhoso gesto de vocês que são soldados” (VILLA, 2008, p.78).

 

Quem serão esses amigos aos quais ele alude? Uma parte da intelectualidade paulista está envolvida com o movimento, alguns ocupam postos proeminentes no governo constitucionalista, como Menotti Del Picchia e Cassiano Ricardo. Outros seguirão junto com as tropas de voluntários para o front, por exemplo, Guilherme de Almeida, Júlio de Mesquita Filho, Alfredo Ellis Junior e Paulo Duarte.

 

Quanto à identificação do material escrito por Mário no Jornal das Trincheiras, o jornalista e pesquisador Jason Tércio aponta uma simples palavra na edição de número 2 do periódico. Ao invés de melhor, o poeta optava por escrever milhór, característica apontada como própria dele:

 

“(…) Milhora imediatamente a situação estratégica das nossas forças e são feitos vários prisioneiros, entre os quais um primeiro tenente do exército”.

 

A sensação de servir é algo inquietante em Mário naquele momento crucial da História Paulista e, mesmo sendo um sujeito de paz, entende como necessária sua atuação, ainda que nos bastidores da guerra. Sua solidariedade parece um sentimento de integração ao espírito, não às motivações e ambições políticas de 1932. Quando o armistício é assinado e cessa o clamor das armas, o autor de Losango Cáqui, vestido, mentalmente, com o cáqui da farda de seus conterrâneos, imerso na frustração da derrota paulista, desabafa em carta ao amigo Carlos Drummond de Andrade, membro do gabinete do governo mineiro, fiel ao ditador:

 

“Voltei ao menino estudante que inda tinha senso político de pátria. E minha pátria é São Paulo. E isso não me desagrada!… Assim como eu me vendi friamente ao crime triste com que a nossa unanimidade pactuara, agora me entrego fatigadamente a essa espécie de masoquismo lírico de isolamento nacional paulista […]. Não sinto o imenso Brasil, não sinto a minha Paraíba, não sinto Minas, nem nada. […] Perdi completamente a minha humanidade. Você, Carlos, perdoe-me por ser um descalibrado. Este é o castigo de viver sempre apaixonadamente a toda hora e em qualquer minuto, que é o sentido da minha vida. No momento, eu faria tudo, daria tudo pra São Paulo se separar do Brasil. […] Jamais me faltou o instinto de solidariedade. Agora falta, abatido por uma solidariedade mais precária. Porém, mais imediata: a solidariedade paulista, que compensa tudo, me desfaz numa unanimidade vermelha e inventa a raça. […] é um egoísmo fulgurante. Você, nacionalmente falando, é um inimigo meu agora. Você talvez não sinta isso, eu sinto. […] pros amigos perfeitos ainda considero uma ignomínia eu me enfeitar. Estou nu.” (ANDRADE, 2002, p. 428).

 

Sentimento separatista

Esse breve sentimento separatista é algo curioso na mente de um intelectual tão encantado com o Brasil como Mário de Andrade. Anos antes da Revolução Constitucionalista de 1932, o “turista aprendiz” como vai batizar seu diário de viagem pelo Norte e Nordeste do país, na segunda metade dos anos 1920, revela sua paixão pela cultura popular e a sede de conhecer os muitos brasis do Brasil, coletando elementos folclóricos e etnográficos que serão importantes em sua obra. O que podemos pressupor é o impacto que o movimento cívico-militar de 1932, a influência de amigos e familiares e mesmo a atmosfera paulistana causaram no escritor a ponto de escrever para Paulo Duarte, desgostoso com o fracasso nas armas contra a ditadura:

 

“O pior é que se esforçam prá fazer a presa andar na contradança, e, o pioríssimo de tudo, é que tem paulista bastante impuro, bastante ingênuo, bastante sem-vergonha, não sei, que acredita em tenente, que acredita em general, que acredita em gaúcho e acredita em promessa. Não! Vamos dar um basta nisso. Não prometam, deem. Deem um estatuto só para nós, pois que somos diferentes mesmo, e sobretudo não venham brigar mais na terra da gente, fazendo esse martirizado São Paulo de campo de suas guerrilhas de roubo, de indivíduos e de merda. Vão brigar na terra deles, nesses brasis africanos onde a puta os pariu!…” (DUARTE, 1971).

 

O acento e a força das palavras são lenitivos de que ele quer servir-se e o desabafo do criador de Macunaíma é desconcertante. No entanto, nos dão uma ideia muito clara do espírito de animosidade que se estabeleceu entre São Paulo, isolado econômica e politicamente a partir de 1930, e os estados alinhados com Getúlio Vargas. A influência dos tenentes no torrão paulista vai desencadear sentimentos separatistas em alguns intelectuais, principalmente Alfredo Ellis Junior. O pensamento do separatismo vez ou outra ainda retorna ao campo das discussões entre alguns grupos mais afinados com ele, em geral, jovens intelectuais que sonham uma pátria paulista.

 

A aceitação da derrota é amarga para Mário de Andrade e ao contemplar todo o esforço pela causa constitucionalista e quiçá as consequências trágicas de uma guerra, ele enxerga-se logrado, vítima do que ele diz “viver sempre apaixonadamente”. Sua culpabilidade se mistura à resignada condição de quem deseja isolar-se com os seus paulistas. Mas esse momento é breve.

 

Passada a tormenta e a fase de convalescença moral, o poeta já não fala em romper com a federação, nunca fora separatista, apenas sentiu a comoção das ruas pela humilhante derrota bélica e se apropriara de um pensamento que lhe brotara da amargura.

 

Em 1934, ele verá a conquista da autonomia paulista, com o governo de Armando Salles de Oliveira, e sentirá pulsar novamente a pujança intelectual com a fundação da Universidade de São Paulo. Deixa-se assim revelar seu amor pelo país e pela sua cultura rica e ilimitada.

 

Em 1935, Fábio Prado, prefeito da capital paulista, seguindo sugestão de Paulo Duarte, convida Mário para assumir a direção do Departamento Municipal de Cultura e Recreação de São Paulo, empreendimento de grande importância para a vida do autor de Belasarte. Nele, poderá retomar suas buscas pelo descobrimento cultural do Brasil, chão do qual, mesmo magoado após o fracasso da Revolução Constitucionalista, não deixaria de palmilhar e contribuir com sua inteligência e talento.

 

Quer saber mais sobre Mário de Andrade, Shakespeare e outros autores? Garanta a sua revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 67 aqui!

Adaptado do texto “A guerra íntima de um intelectual: Mário de Andrade e a Revolução de 1932”

*Rodrigo Ruiz é professor de História e pesquisador, morando atualmente em Itapira, interior de São Paulo, onde desenvolve seu projeto de resgate da história local com alunos dos quintos anos das escolas municipais.