Miguel de Cervantes: vida e obra do gênio da literatura ocidental

O escritor espanhol é considerado um dos quatros gênios da literatura ocidental. Não é apenas pela qualidade de sua obra em si, mas mais ainda pela influência em outras artes

Texto Anderson Alves Costa* | Fotos Shutterstock

Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em Alcalá de Henares, localidade perto de Madri, Espanha, em 29 de setembro de 1547. Aclamado pela crítica e público, autor do primeiro romance moderno As aventuras do engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha (escrita em duas partes, a segunda publicada em 1615), também foi poeta e dramaturgo. A literatura mundial está em festa, pois é 2016 um ano para ficar na história da humanidade: comemora-se 400 anos de sua morte. Mistério e suposição aguçam nosso imaginário e jogam ainda mais luz quando o tema é estudar a vida do romancista espanhol, como, por exemplo, a tese de que teria morrido no dia 22 de abril, ou mesmo que teria nascido em outro local, já que outras cidades próximas a Alcalá disputam este reconhecimento. Muito já se escreveu a respeito de Cervantes e Dom Quixote; contudo, o fascínio continua vivo e povoando a mente de leitores, críticos literários e ensaístas pelo mundo, que, direta ou indiretamente, acabam por fomentar o mercado editorial mundo afora.

Deixou-nos aos 68 anos. Desde então, o gênio Cervantes inspirou não apenas romancistas – e são muitos os que o idolatram por sua genialidade – mas artistas plásticos (principalmente pintores, escultores), escritores, poetas, ensaístas, desenhistas, cartunistas, contadores de histórias, grafiteiros. Também celebrado no teatro, cinema e televisão, com as adaptações direcionadas aos públicos infantil, infantojuvenil, juvenil e adulto. Na difusão de sua obra, principalmente o livro Dom Quixote, o que mais o popularizou e atravessou séculos e culturas diferentes ao povoar o imaginário das pessoas em mais de 60 idiomas, a escola tem se mostrado um espaço imprescindível para tal, usando as aventuras do delirante Dom Quixote, na companhia do pangaré Rocinante e de Sancho Pança, para encantar crianças e jovens.

Profissionais de áreas não vinculadas à arte e à cultura também recorrem a sua obra. Por ser um marco na literatura universal, a expressão “quixotesco”, não raramente, é cunhada por estes em publicações e conferências de toda ordem com menção ao personagem Dom Quixote. O idealismo e a loucura são elementos que fortemente compõem o perfil dessa personagem, o que agrada a pesquisadores que estudam o ser humano e tudo que o cerca, mais segmentos voltados à pedagogia, à psicanálise, à psicologia, à sociologia. Já presenciei cenas em que esse termo foi utilizado para caracterizar alguém de sonhador. Mas o que explica tamanho fascínio em torno da vida e da obra de Cervantes Conforme o historiador francês Roger Chartier, especialista na história do livro e da leitura, bem como um estudioso de Cervantes, foi porque o espanhol “era uma língua muito identificada com as novidades literárias de seu tempo, e a obra de Cervantes circulou imediatamente”; já do ponto de vista estético, não havia em Dom Quixote de La Mancha o tom artificial dos romances de cavalaria ou das pastorais — literatura produzida naquela época e que gozam de muito prestígio ainda hoje —, e sim uma linguagem cotidiana, o que dá ao romance o tom moderno. Em verdade, o autor satirizou os romances de cavalaria.

À frente de seu tempo, Cervantes marcou época. Para compreender o período que corresponde aos anos de vida de Cervantes, um diálogo entre a Literatura e a História se faz necessário. Dentro desta perspectiva, trazer à luz o contexto histórico que cercava o Renascimento na Espanha nos ajuda a entender a produção literária do autor, em especial a sua obra máxima, na qual o idealismo da cavalaria e o realismo renascentista podem ser metaforicamente vislumbrados nos dois personagens centrais: Dom Quixote e Sancho Pança. É pura literatura; no entanto, se nos  profundarmos na leitura dessa obra, notar-se-á que muito do período histórico vivido pela Espanha é palpável no texto do autor, isso porque a narrativa traz marcas de valor histórico e documental.

INÍCIO DA ERA MODERNA
Séculos 15 e 16. A Europa é palco de grandes transformações, o que marcou definitivamente o início da Era Moderna. Conforme o educador e historiador Gilberto Cotrim, significativos eventos
sociocultural, histórico, econômico e religioso contribuíram para que o período em questão ganhasse força, voz e adesão de parte da população: a centralização do poder, a unidade cristã foi quebrada com a reforma protestante, as relações feudais deram lugar ao nascente capitalismo, o movimento humanista e o Renascimento, iniciado na Itália. A expansão marítimo-comercial europeia galgava importantes feitos, levando à conquista de outros continentes. Considerando esses aspectos, o processo de renovação da cultura na Espanha foi intenso. Para Cotrim, “tempos de inquietação intelectual, agitados por múltiplos questionamentos”, isso porque novas ideias e valores ganhavam destaque nas artes, nas ciências e na filosofia, com os intelectuais aspirando a explicações mais racionais em oposição à exaltação da fé religiosa, que predominou na Idade Média. A mentalidade medieval dá lugar a manifestações do individualismo.

 

Dentro dessa perspectiva humanística, muda a mentalidade europeia. A curiosidade intelectual, o espírito de iniciativa, o desejo de aventura e de exploração do mundo são resultantes dos valores humanistas. Em meio a essas transformações é que surge o movimento cultural denominado Renascimento ou Renascença. Na Espanha, o intelectual que se destaca é Cervantes, sendo aclamado
por criar uma sátira aos ideais da cavalaria medieval. Se o medieval e tudo que o cercava eram, enquanto concepção criativa, algo para superar, considerando a nova visão de mundo, são os personagens Dom Quixote – mergulhado no sonho, na fantasia e no ideal – e o escudeiro Sancho Pança – representando a vida real – a perfeita representação do idealismo e da visceral realidade.

Para o escritor peruano Mario Vargas Llosa, Cervantes produziu Dom Quixote de La Mancha para o século 21, e que a modernidade reside em seu espírito rebelde e justiceiro, de mudar o mundo. Não só, mas talvez por isso o romance encabece as listas de maiores obras de ficção. Para a conceituada obra 501 Grandes Escritores – um guia sobre notáveis romancistas, poetas, dramaturgos, filósofos e ensaístas de todos os tempos –, sendo editor geral Julian Patrick, professor de inglês e de literatura comparada da Universidade de Toronto, “a vida de Cervantes desperta tanto interesse quanto suas obras”. E continua: “Sua primeira obra publicada foi em 1569 (…). Neste mesmo ano, Cervantes viajou para a Itália, alistou-se como soldado e combateu na Batalha de Lepanto contra a frota turca.” Em 1571, foi ferido no peito e na mão esquerda, deixando-a inutilizada, o que lhe vale o apelido ‘o manco de Lepanto’.

 

AS OBRAS DO “MANCO DE LEPANTO”
Em 1575, durante seu regresso de Nápoles a Castela é capturado por corsários berberes, e vendido, junto com o irmão Rodrigo, como escravos, na Argélia, sendo libertado do cativeiro cinco anos depois, pelos esforços de sua família e dos monges da ordem da Santíssima Trindade. O período em cativeiro render-lhe-ia inspiração às suas criações literárias. De volta à Espanha, publica o seu primeiro romance A galateia, em 1585, e mesmo com sucesso modesto, chamou atenção do universo literário. Animado, o autor se aventura como dramaturgo. Apenas se conhece a tragédia histórica A destruição da Numância (1582) e El Trato de Argel (1580). Além das obras já citadas, as principais em prosa são: Novelas exemplares (1613), Los trabajos de Persiles y Sigidmundo (1617). Viaje Del Parnaso (1614) é sua única obra de poesia. Ainda, em 1615, publica a peça Ocho comedias e ocho entremeses nuevos. O consagrado escritor espanhol, apesar do reconhecimento em vida pela sua produção, viveu sem pujança financeira igual ao pai, um cirurgião pobre.

Não há como visitar o criador sem mencionar a criatura, isto é, o clássico Dom Quixote de La Mancha deu a Cervantes status de gênio. Baseadas no livro, obras cinematográficas – ficção e não ficção e animações infantis – e teatrais e musicais ganharam as telas e os palcos pelo mundo. Indico assistir ao filme Don Quixote, de Peter Yates, lançado em 2000, estrelado por John Lithgow, Bob Hoskins, Isabella Rossellini, James Purefoy e Lambert Wilson. Para crianças, desenhos animados são o que mais foram produzidos, e nas mais diversas representações, trazendo não só Dom Quixote e o seu fiel escudeiro Sancho Pança como protagonistas fidedignos à obra, como também a inserção de outras personagens para interpretá-los, seja baseados no enredo original ou criando novas versões.

CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA
Contudo, é na literatura que o engenhoso fidalgo Dom Quixote, ou Cavaleiro da Triste Figura, como também ficou conhecida a personagem na trama, mais tem sido referenciado ou servido de inspiração a escritores e poetas na confecção de suas personagens. Segundo o poeta Ivan Junqueira, a primeira manifestação da influência do Dom Quixote entre nós vem do poeta satírico Gregório de Matos, que domina toda a literatura barroca produzida no Brasil durante o século 17, presente em dois poemas. Renderam-se aos temas cervantinos, ainda, Machado de Assis, Monteiro Lobato, José Lins do Rego, Lima Barreto, Dalton Trevisan, Autran Dourado e Ariano Suassuna. No passado ou no presente, bebe-se em Cervantes.

“Entre os poetas brasileiros contemporâneos que pagam algum tributo ao mito de Cervantes, lembrem-se, Alphonsus de Guimarães, Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, autor de A Visita, obra-prima de prosa evocativa em que o autor se imagina recebendo Dom Quixote em sua casa, onde lhe confessa as angústias pessoais e os temores sobre a vida do país; e, mais de que qualquer outro, Carlos Drummond de Andrade, talvez o maior dentre todos os poetas de nossa modernidade e que nos legou, sob o título de Quixote e Sancho, de Portinari”, escreveu Ivan Junqueira. Poeta contemporâneo, Delalves Costa, no livro Inacabamento, a eterna gestação (Porto Alegre: Pragmatta, 2016), escreve Entre sonhos, versos, moinhos \ o eólico Dom Quixote \em combate às línguas mortas \ que anulam a cafeína \ ao dar vazão ao aleatório. Aqui, o autor versa o desafio do sujeito poético em combater as línguas mortas, para salvar o idealismo e a virtude – metaforicamente, representados pelo termo cafeína, combustível aos que lutam pela manutenção dos valores intelectuais.

Sabe-se que a literatura estrangeira tem restrita aparição ou a ela não é dado nenhum espaço no currículo das instituições de ensino brasileiras, o que é uma lástima. Quando é trabalhada, é no ensino fundamental que mais se difunde este tipo de literatura. Como já citado, muitos livros – e em tempo incluo os didáticos – de autores brasileiros, referem-se aos clássicos universais. A premiadíssima escritora Ana Maria Machado homenageia Cervantes em O Cavaleiro do Sonho: As Aventuras e Desventuras de Dom Quixote de La Mancha, livro para o público na faixa dos 6 a 10 anos, ilustrado com pinturas do grande pintor brasileiro do século 20, Candido Portinari, que também não deixa de ser homenageado, o qual também partilhava das ideias do escritor.

Para além das homenagens artístico- culturais rendidas ao genial escritor espanhol, a ciência disputou os holofotes em 2016 ao anunciar ter encontrado os seus restos mortais. Para o antropólogo Francisco Etxeberría, coordenador da equipe de historiadores e arqueólogos, as coincidências são muitas e sem discrepâncias. A ossada foi localizada na cripta da igreja do Convento de San Ildefonso de las Madres Trinitarias, no conhecido bairro da Letras, centro de Madri, local de falecimento, em 22 de abril. São 400 anos de sua morte, mas os festejos são para prestar homenagem à história viva de Miguel de Cervantes, hoje patrimônio da humanidade.

*Formado em Letras Licenciatura-Plena em Português e Literatura de Língua Portuguesa pela FACOS, onde é corretor de redações de vestibular. Pesquisador e palestrante nas áreas de ensino, cultura e história local, autor de ensaios para revistas e jornais de circulação nacional. Membro da AELN/RS. Poeta e escritor de nome artístico Delalves Costa.

 

Referências
CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de La Mancha – Livro Primeiro; tradução de Viscondes de Castilho e Azevedo. Porto Alegre: L&PM, 2011.

COTRIM, Gilberto. História Global: Brasil e Geral – Ensino Médio. V. Único. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2005.

FREITAS, Guilherme; / REIS, Luiz Felipe. Os 400 anos da morte de William Shakespeare e Miguel de Cervantes: Mais do que clássicos, autores deixaram pistas valiosas para a compreensão do mundo e de nós. Disponível em: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/os-400-anosda-morte-de-william-shakespearemiguel-de-cervantes-19105201. Acesso em: 2 Ago. 2016.

LlOSA, Mario Vargas. Una novela para el siglo XXI. Real Academia Española: Madrid, 2004. PATRICK, Julian. 501 Grandes Escritores. [Tradução de Livia Almeida e Pedro Jorgensen Junior]. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.

TRESPACH, Rodrigo. Ossada encontrada em cripta seria mesmo de Miguel de Cervantes. Disponível em: www.rodrigotrespach.com/2015/03/18/ossadaencontrada-em-cripta-seria-mesmode-
miguel-de-cervantes. Acesso em: 2 Ago. 2016.