A genialidade de Fernando Pessoa

Celebrado em nossa atualidade como um dos grandes poetas do século XX. Vale, por isto, sempre recuperá-lo e convidar à sua leitura.

Por Juarez Donizete Ambires* | Adaptação web Caroline Svitras

 

A lembrança dos oitenta e um anos de sua morte é um incentivo para tanto. Leiamos, então, sua poesia, mas também outros textos deixados pelo próprio Pessoa. Buscando uma compreensão do seu universo, é preciso assim proceder. O poeta se explica e explica sua criação. Os textos de O eu profundo e outros eus foram produzidos com este intuito. Vão falar, por isto, de despersonalização e simulação, palavras-chave para o entendimento de um universo literário que se forjou na expressão heteronímica. Forjou-se, ainda, no diálogo com os anseios da cultura portuguesa antecedente.

 

Heterônimos, na sua vez, são personalidades poéticas que Pessoa criou. Não se trata, por isto, de um contexto ou de uma produção de poesia assinado por pseudônimos. O procedimento ou construção é algo mais complexo que isto. Fernando é um poeta dramático e os principais heterônimos criados têm sua personificação. Eles apresentam, devido ao fato, um histórico existencial, biográfico.

 

 

Assim, possuem uma data de nascimento, um tipo físico, um estilo de poesia, um talhe de letra. Em Carta a Adolfo Casais Monteiro, o poeta dá ao crítico explicações sobre o seu universo poético. Com humor, afirma no mesmo texto que a esquizofrenia certamente explicasse os desdobramentos de personalidade. Mesmo a poesia assinada com o nome Fernando Pessoa é heteronímica. Na carta a Casais Monteiro o poeta nos alerta para o fato. Em sequência, informa que os seus principais heterônimos são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Noutros escritos (anteriores à carta), vai além e, construindo suas personas, afirma: Caeiro é o mestre dos outros dois heterônimos. É ainda o moço da província; vem do meio rural e sua formação escolar é a menor entre os três. Ele, contudo, é visto como mestre por Reis e Campos. Entre os três grandes heterônimos, é provavelmente aquele que evoca a infância e a ela nos remete. É amigo do menino Jesus, mas o quer livre do controle da igreja e sem o peso dos séculos de história que o cercam.

 

 

O poeta das sensações

É ainda o poeta das sensações, e o mundo pelas sensações pode ser visto como prova do seu apego à infância e ainda à natureza. Caeiro sempre aconselha, por isto, a que sintamos (verbo intransitivo) e, na extensão, nos livremos do pensamento. Lembremo-nos de que, para ele, pensar é estar doente dos olhos. E por ser o poeta dos sentidos, Pessoa o filia em sua gênese a Cesário Verde. Em verdade, associa-o ao estimulo sensitivo que encontrou em alguns poemas de Cesário. Na extensão dos fatos, chama a atenção do leitor para os quarenta poemas realistas que o poeta nos legou. Neste conjunto, encontra-se, para exemplo, “Num bairro moderno”, poema que é ode camuflada às sensações e a um mundo visto e captado por elas.

 

Reis é o médico e o poeta que amam a cultura clássica. Os valores do universo greco-romano estruturam-lhe a vida e a captação das coisas. Devido ao fato, há em sua poesia certo tom melancólico. Sua escrita dialoga com o mitológico e convive com Virgílio, Horácio, Lucrécio. A busca do equilíbrio entre os sentidos e a razão preocupa-o, e ele expressa o fato. A filosofia estoica é também sua conhecida. Consigo e em sua poesia, o poeta guarda as lições de Sêneca, interage com o seu conteúdo. Enxergando o mundo como homem da cultura clássica, dirige-se aos deuses no panteão. Encaminha Cristo para este espaço e o vê como mais uma de suas divindades. Nas falas de Pessoa acerca deste heterônimo, é de todos o que possui o melhor português.

 

 

Álvaro de Campos, na vez dele, representa a modernidade. É o engenheiro de profissão, como também o heterônimo das viagens. Almada Negreiros o retratou de monóculo e maleta na mão. Porta maior elegância que a de Caeiro e a de Reis. Sua geografia é a urbana, a das grandes cidades. Dialoga com a solidão destes espaços e deambula. Sua segunda língua é o inglês. Dos três poetas é o de comportamento mais irascível. Não suporta se sentir conduzido. Fala da nulidade do ser, mas, à parte isto, traz em si todos os sonhos do mundo. Se uníssemos as três personas principais para a composição de um único homem, Álvaro certamente seria a adolescência e a instabilidade. Em sua forma de ser, expressa ainda o amor heterodoxo.

 

O ortônimo (mais um heterônimo, em nossa opinião) é a persona de o Cancioneiro e Mensagem. Em seu fazer poético, ele efetua a recolha das quadras populares para o primeiro livro. Depois, dialoga com Camões, construindo um poema épico às avessas. Mensagem, em sua gênese, assume esta representação. Liga-se ainda ao diálogo que Pessoa trava com a história de Portugal. Em sua cultura, ele sabe que grita o anseio de se encontrar outro Luís Vaz. Os conteúdos do presente negam as glórias do passado e O Ultimato inglês, de 1890, proíbe na África a afirmação do terceiro império. A alternativa ao impasse se faz, na perspectiva de Pessoa, pela literatura. Mensagem, anos depois, é sua resposta. Nos seus poemas, porém, há espectro.

 

Por isto, em todo o livro, o passado vem à tona e, nele, um poema épico invertido se processa. Nomes são evocados. O procedimento fora usado antes por Guerra Junqueiro. Pátria – peça para teatro – constrói-se com este intuito. Unindo-se a Os Lusíadas, torna-se o alicerce de Mensagem, em cujas páginas muitos desfilam, mas presos às suas sinas. Isto ocorre com o Infante, com Diogo Cão. Também com Filipa de Lencastre, aquela que só gênios concebia, mas trazendo em si um enigma. Ocorre ainda com D. Sebastião, personagem que é o desejado, mas sempre engolido pela névoa. Em sua essência, o rei é de todos o mais malsinado. De algum modo, ele é Portugal também se fazendo em símbolos de tragédia e desesperança.

 

 

Após a alçada dos heterônimos, viria, em escala de importância, um semi-heterônimo chamado Bernardo Soares. A ele Pessoa atribui O livro do desassossego, e se afasta do mundo da poesia. O livro é composto de centenas de fragmentos, dos quais Fernando publicou apenas doze. Seu narrador principal é o próprio Bernardo. Nos textos em prosa, os temas oscilam, para exemplo, entre as variações do estado psíquico do narrador e a paixão; entre a moral e o conhecimento. Devido a este fato, a produção se envolve com teores filosóficos e não apresenta uma narrativa linear. A circunstância dificulta sua leitura e a isto se alia a angústia que envolve os conteúdos. Trata-se, entretanto, de um grande livro a pedir os leitores dos heterônimos.

 

Com esta panorâmica, apresenta-se o centro da escrita de Fernando Pessoa. Em sua produção, todavia, a quantidade de poetas é imensa. Seus estudiosos já falam em 72 heterônimos, proporção admirável. Ante o fato, porém, muitos, querendo explicar esta diversidade e riqueza, cogitam, em nossa leitura, hipóteses pouco acadêmicas. O que tem sido mais frequente é atribuir a origem de todo este processo a supostas vinculações do poeta ao Espiritismo, fato que descarta, a nosso ver, o homem criador. Com a aceitação da hipótese, a criação seria um ato religioso. Os heterônimos, assim, seriam momentos de psicografia. Seriam, ainda, episódios de incorporação, o que poria fim à genialidade eclética do poeta.

 

Para nós, entretanto, interagir com Pessoa é não perder de vista o componente racional que dirige sua criação. Diz-nos o ortônimo que “o poeta é um fingidor”, lembrando-nos sempre da dissimulação presente na escrita. Já em segunda instância, o aviso é o de que, com o fato, o mesmo fingimento é construção. Em nossa leitura, é esta a hipótese que o poeta concretiza. Agindo assim, de algum modo ele reafirma que fingidor e fingimento são palavras derivadas de fingir. A seguir, mostra que o mesmo verbo vem do latim fingere (Reis estaria por trás disto?), cujos sentidos são alguns. Primeiramente, ele abriga os significados de fingir, pintar, desenhar; já em segundo momento, os de desenvolver, construir e mesmo erigir.

 

 

*Juarez Donizete Ambires é professor de Língua e Literatura Portuguesas no Centro Universitário Fundação Santo André. (http://lattes.cnpq.br/5231846291164013). contato: juarez.ambires@bolcom.br

Adaptado do texto “Fernando Pessoa 80 anos depois”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 63