A formação do leitor-mirim integrando escola e lar

Por Cláudia S. Coelho* | Adaptação web Caroline Svitras

Sandra Bozza é linguista, filósofa, psicóloga, socióloga e escritora. Professora de Metodologia de Ensino da Língua Portuguesa, de Literatura Infantil, de Linguística e de Metodologia de Ensino de Alfabetização e Letramento. Em 1991, fez parte do grupo que produziu a Proposta de Alfabetização para o Currículo Básico de Curitiba. Foi considerada pelo MEC como uma das cinco propostas mais avançadas do País, e que anos mais tarde serviu de base referencial para os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa e para a Lei de Diretrizes e Bases (LDB 9394/96), na questão de avaliação de Língua Portuguesa. Entre seus livros lançados mais relevantes estão: Na escola sem aprender? Isso não!; Avaliação e aprendizagem: entre o pensar e o fazer; Língua Portuguesa a Partir do Texto (4 Volumes) e Coleção Trabalhando com a Palavra Viva (2 Volumes).

 

CSC – Como mostrar para filhos e alunos a importância da leitura e ajudá-los a desenvolver, mais do que o hábito, o prazer de ler? 

SB: Costumo dizer que se a palavra convence, o exemplo arrasta. Assim, se desejamos que os menores gostem de ler, precisamos demonstrar, através da prática, que ler, além de nos auxiliar a refletir, pode nos divertir, informar, entreter e enternecer. Insisto: não adianta nada falar para filhos e alunos que a leitura nos proporciona tudo isso. É necessário conquistá-los para esse prazer. Por isso, leia (de tudo) para eles, com eles e por eles.

 

CSC – Alguns educadores afirmam que se deve evitar a leitura para crianças de histórias infantis com bruxas, monstros, personagens macabros etc. Outros, por sua vez, alegam que tais personagens ajudam a criança a elaborar temas como a morte. Qual sua opinião a respeito e em sua experiência qual o tipo de conteúdo mais adequado para crianças em fase de alfabetização?

SB: Uma das principais funções da literatura é aproximar o leitor de toda gama de sentimentos. Os bons e aqueles nem tão aprazíveis. É muito mais fácil compreender e assimilar alguns fenômenos emocionais quando os mesmos são vivenciados pelas personagens. É no texto literário que muitos adultos também se pautam para a solução de problemas reais e com as crianças isso não é diferente. Administrar perdas e frustrações, rompimentos e traições não é matéria fácil para ninguém, todavia, para aprender a conviver com isso, não é necessário vivenciar essas emoções. Podemos refletir sobre elas através da experiência alheia. Inclusive daquelas que povoam nosso universo fantástico, como as heroínas de filmes e desenhos animados e os heróis das histórias em quadrinhos. Tendo tudo isso em vista, creio que não há conteúdos específicos para quem está aprendo a ler. Tudo dependerá da qualidade da mediação realizada pelo adulto ou pelo leitor mais experiente, como um irmão mais velho, a avó ou uma madrinha, por exemplo.

 

 

CSC – A sra. defende a necessidade de mecanismos que garantam que os responsáveis pela formação do leitor-mirim se formem simultaneamente enquanto atuam. Como se daria esse preparo?

SB: Também pela sensibilização da função da literatura na vida dos seres humanos. A escola precisa ter isso muito claro e, quando necessário, trabalhar com urgência na formação de seus profissionais. Algumas ações, como as que seguem, podem auxiliar esse processo.

1. MEDIAÇÃO: Ninguém aprende sozinho e a formação leitora do educador é também de responsabilidade da Escola. Assim, há que se criarem estratégias para que aqueles já possuam essa competência contribuam para a ampliação da leiturização dos companheiros.

2. OPERACIONALIZAÇÃO: Selecionar uma obra clássica (que possa ser “baixada” pela internet, para dar oportunidade a todos de lerem sem custos), para que um amante da leitura apresente para o grupo e leia alguns trechos que poderiam convencer sobre a beleza e a necessidade de tal obra ser lida. Seria interessante que se discutisse brevemente sobre:

  • O tema que o livro aborda;
  • Relevância de seu autor;
  • A época em que foi escrita e
  • O tipo de linguagem utilizado.

3. ACESSO: Instituir um mural (no refeitório ou na sala dos professores) para postagem de textos literários curtos (contos, poemas, anedotas construtivas, crônicas, entrevistas com autores literários). O contato com essa tipologia textual não é fácil, entretanto é contagiosa. Pode-se começar a coletânea com aquele profissional que já tenha essa competência.

4. DINAMICIDADE: O mural poderá ser renovado semanalmente e o seu conteúdo arquivado virtual e fisicamente (transformado em um “livro do ano”, com o nome do profissional colaborador, autor e fonte – de onde foi retirado o texto – e data). Isso permitiria constituir um acervo, registrar a participação e constatar o crescimento individual e do grupo.

5. PARTICIPAÇÃO: Poderá ser organizado um cronograma de quem vai contribuir a cada semana, iniciando espontaneamente e depois uma escala, com datas a serem cumpridas.

6. PRÁTICAS: Atribuir a um profissional a tarefa de seleção, preparação e leitura de um texto literário em cada reunião semanal, precedida de rápidas reflexões quanto ao conteúdo e à forma do texto lido.

7. EXERCÍCIO COM ALUNOS: Destinar toda segunda-feira (para dar tempo de organização em casa) para que os professores LEIAM algo interessante em sala de aula (deixar o gênero livre). As discussões poderão ser registradas pelos alunos (num cronograma específico) e assinadas pelos pais.

8. ACERVO: Organizar a biblioteca pessoal e institucional do Corpo Docente, com os Clássicos da Literatura Universal e Nacional. Os professores podem “baixar” clássicos disponíveis na internet, imprimir e socializar.

9. SENSIBILIZAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS: Iniciar ou concluir cada Reunião de Responsáveis com a prática de leitura de um TEXTO LITERÁRIO, enfatizando o autor e sua nacionalidade. Se possível, enviar os texto lido e datado.

10. PONTES: Aproveitar o referencial do aluno para estabelecer relações literárias para o professor. Por exemplo:
O aluno conhece A Bela e a Fera, da Disney. O professor já leu o conto original?
A mídia lança filmes e programas embasados em livros. Quais já foram lidos pelo professor?
O texto do desenho/filme O Rei Leão é a história narrada por Shakespeare. O professor sabe qual é?
O Corcunda de Notre-Dame é uma obra de Victor Hugo. O professor sabe quem ele é? Quais suas outras obras?

Só por hoje dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando-me de que, assim como é preciso comer para sustentar meu corpo, também a leitura é necessária para alimentar a vida da minha alma.

Entrevista com Cida Simka

 

CSC – De que forma pode-se estabelecer uma correlação entre o dever de casa e o que foi aprendido na escola com as questões do cotidiano fora da sala de aula?

SB: Essa é uma questão complexa de se discutir porque traz em seu bojo a intencionalidade dos conteúdos selecionados como essenciais pela escola, somado à concepção de aprendizagem que subjaz a todo o processo pedagógico. Em outras palavras: para a escola que acredita que ensinar é o mesmo que demonstrar determinado conteúdo, ensinar como se faz o exercício e propor vários exercícios para serem resolvidos pelos alunos, as possibilidades da tarefa de casa ser relacionada com o treino proposto poderão ficar mais difíceis. Se, por outro lado, o que a escola refletiu em classe for algo que a sociedade utiliza, que as mídias estão abordando ou onde as necessidades diárias estão presentes, a tarefa de casa pode ser de observação, constatação, opinião, registro, comparação… Ou seja, a mesma concepção de aprendizagem utilizada na sala de aula (reflexão sobre os conteúdos funcionando) vai nortear os deveres do aluno fora dela e possibilitar o estabelecimento de correlação. Assim, para as crianças que frequentam escolas mais tradicionais, a família pode auxiliar treinando o que a escola propõe, tomando a leitura, estudando os pontos de História ou de Ciências. Para as famílias que optaram por outras escolas, a tarefa de casa pode ser realizada com a conversa e a reflexão sobre o dia a dia.

 

 

CSC – Ao procurar uma escola para filhos em idade de alfabetização, quais os principais pontos que devem ser observados pelos pais? 

SB: A melhor escola para nossos filhos é aquela que possui a mesma concepção de mundo da família da criança a ser matriculada. Isso implica compreender que uma família que tem como princípio a competitividade, a meritocracia e deseja seu filho no topo do ranking das notas, deverá optar por uma instituição que vise formar campeões, utilize a avaliação classificatória e que as atividades sejam em grande quantidade. Porém, há famílias que prezam pelo desenvolvimento de outras habilidades sociais em seus filhos e, por esse motivo, valorizam atividades coletivas, privilegiam o cooperativismo, refletem sobre o excesso de consumo, buscam soluções mais ecológicas e saudáveis para a vida diária e outras atitudes do gênero. Estas famílias valorizarão escolas com um ritmo intenso de atividades que propiciem a análise, o relato, a opinião, o desejo, a síntese, a observação. Enfim, conteúdos e métodos utilizados por cada escola são decorrentes do tipo de sujeito que querem formar. Por esse motivo é muito importante que a família se atente a essa questão, investigando qual a tendência mais forte da escola analisada. Obviamente, é difícil que se encontre escolas puramente reflexivas ou somente mecanicistas. Todavia, é necessário perceber que tipo de encaminhamento está sendo enfatizado para formar aquele ser humano.

 

 

CSC – Há maneiras de os pais verificarem se o processo de alfabetização da escola está sendo desenvolvido a contento? 

SB: O que a família precisa estar ciente é da metodologia utilizada pela escola de seus filhos. A escola tem o dever de pautar os responsáveis sobre o que as crianças vão aprender (conteúdos), de que forma isso ocorrerá (questão metodológica) e como serão avaliadas (qual o papel da avaliação). As reuniões e encontros entre família e escola devem ultrapassar os limites dos resultados. O ideal é que sejam estabelecidos critérios para que todos (responsáveis, criança e escola) possam acompanhar o desenvolvimento das crianças. Se a escola tiver por norma a correspondência frequente entre as duas partes, isso facilita e pode fazer bem para a criança, a escola e a família. No caso da alfabetização, é necessário compreender que para acompanhar e auxiliar esse processo há que se ter claro o método utilizado. Se a escola prioriza decorar determinado número de fonemas (sons) para ser “aprendido” no bimestre, fica mais fácil a família perceber se a criança conseguiu acompanhar. Já em uma metodologia mais avançada, em que o mais importante são as hipóteses de escrita construídas pelo aluno, os responsáveis deverão se inteirar junto à equipe pedagógica para poder ter claro o que exigir de seus filhos.

 

CSC – Que atividades a sra. sugere para que o aprendizado se estenda no ambiente familiar? 

SB: A primeira ação é provocar a reflexão sobre o que está sendo estudado. Só a partir dessa interação entre a família e a criança responsável pela tarefa é que se podem desdobrar as ações que poderão tornar essa tarefa mais significativa. Isso pode se realizar a partir de pesquisa e comentários sobre o assunto abordado ou partindo do relato de uma situação similar vivenciada por alguém da família. Trazer à baila filmes, livros e histórias já conhecidas por todos sempre ajuda. Outra maneira de expandir os conhecimentos trabalhados na escola é utilizando os mesmos. Por exemplo: se, na área de História, as crianças precisam compreender a organização da geografia humana do município ou do país, é possível partir da formação própria família. Ou ainda, quando a área fora a Matemática, a ida ao mercado ou a algum estabelecimento comercial e solicitar que a criança faça as contas, ou a lista de compras, ou leia a lista já elaborada, também ajuda. O que precisa ficar claro é que não há aprendizagem sem o uso dos conteúdos a serem apreendidos. Por essa razão, incentivar a utilização em casa do que a escola pretende ensinar, é imensamente produtivo em termos de consolidação de conteúdos.

 

 

CSC – Há algo que a sra. gostaria de acrescentar? 

SB: Gostaria de salientar que muitas ações no sentido aqui refletido estão sendo viabilizadas pelas políticas públicas. Muitos municípios, bem como as escolas privadas e instituições não governamentais, estão desenvolvendo projetos bastante interessantes. A seleção de material literário está fantástica e há professores bem envolvidos com essa prática de sensibilização através do exercício da leitura de textos literários. Ainda assim, há alguns profissionais que, por não verem na literatura uma possibilidade de ampliação da visão do mundo e de prazer, relegam a literatura para os vinte últimos minutos de aula, depois que as crianças já guardaram todo o material. Isso não é grave, pois se pode realizar um bom trabalho nesse espaço de tempo. O que me preocupa é o fato de que nem sempre a obra é de conhecimento profundo do professor. Isso gera uma deficiência no momento da leitura, pois não há como impostar a voz ou dar um ritmo adequado ao texto sem conhecer, profundamente as intenções do autor. Essa prática pode vir a ser um desserviço nessa tão árdua batalha.

 

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Fotos: Conhecimento Prático – Literatura Ed. 56

Adaptado do texto “Entrevista com Sandra Bozza”

*Cláudia S. Coelho, coordenadora editorial das revistas Conhecimento Prático Literatura e Conhecimento Prático Língua Portuguesa da Editora Escala Educacional, é graduada em Letras e especialista em Psicopedagogia e Tradução. É professora de Língua Portuguesa, com ênfase em redação e gramática, Língua Inglesa e Português para estrangeiros. Blog: <http://ritualdoalimento.blogspot.com.br>.