A fantástica fábrica de Roald Dahl

Um dos filmes que marcou a infância de muitos de nossos leitores teve uma nova versão refilmada pelo cineasta Tim Burton há alguns anos. Realidade e ficção se misturam com a biografia do autor cujo livro deu origem aos dois filmes

Por Adilson de Carvalho Santos* | Foto: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

Escrever uma história capaz de encantar as crianças e fixar em seu imaginário imagens e palavras que atravessam gerações é um feito admirável. Mas além disso conseguir despertar a criança interna de cada um é um feito surpreendente. É o caso de Peter Pan, de J. M. Barrie, O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupery e A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Roald Dahl, autor britânico.

 

A história da fábrica de chocolate foi publicada em 1964, traduzido para mais de 30 idiomas e adaptado duas vezes para o cinema, tendo se tornado uma das fábulas mais amadas de duas gerações: as que tiveram Gene Wilder como Willy Wonka em 1971 e, mais de 30 anos depois, aqueles que a conheceram com a performance de Johnny Depp. O interesse pela obra de Dahl foi renovado, bem como serviu de estímulo para que outros textos do autor fossem descobertos, já que sua prolífica carreira passou  por décadas e muito além de sua morte em 1990, aos 74 anos.

 

Dahl nasceu no País de Gales em 13 de setembro de 1916 em meio ao primeiro conflito mundial. Tendo perdido sua irmã mais velha e seu pai muito cedo, o futuro talentoso escritor foi criado pela mãe, que o educou em escolas inglesas. Por volta dos treze anos, Dahl estudava  na Repton School, em Derbyshire, que costumava receber caixas de chocolate da tradicional fábrica Cadbury para que os jovens provassem os produtos antes de sua comercialização. Em retribuição, a Cadbury dava a Dahl e os demais presentes  os deliciosos produtos da empresa. Dahl, inclusive, sonhava em inventar uma nova barra de chocolate que chamasse a atenção da empresa fundada por John Cadbury no final do século XIX. O episódio foi a inspiração, anos mais tarde, para que Dahl escrevesse a história de A Fantástica Fábrica de Chocolate: O menino Charlie Bucket é sorteado junto a quatro outras crianças, com o bilhete dourado que os levará a um passeio pela fábrica do recluso chocolateiro Willy Wonka.

 

As coincidências entre a Cadbury e o livro de Dahl são várias: em 14 de agosto de 1990, a Cadbury inaugurou um parque temático em Bourneville, no Reino Unido, próximo à fábrica e que atraiu milhares de visitantes. O local parece o cenário da história de Dahl, com brinquedos e atrações que fazem o visitante se sentir em um lugar mágico, com rios, cascatas e montanhas. Além disso, o logotipo das barras de chocolate carregam a assinatura estilizada de  William Cadbury, lembrando o nome Wonka retratado nas adaptações do livro para o cinema. A diversidade de produtos Wonka reflete na ficção a variedade da Cadbury, com chocolate ao leite em barra (surgido em 1905), chocolate ao leite com flocos de arroz, com caramelo, biscoito wafer e uma infinidade de outros que faz da Cadbury a marca preferida dos ingleses e, mundialmente, uma das maiores concorrentes de nomes como a Nestlé Hershey ou a Ferrero Rocher.

 

Foto: Shutterstock

 

Na história de Dahl, cada criança personifica um aspecto moralizante da educação  infantil: Augustus Gloop é o guloso, Veruca Salt, a menina mimada; Violet Beauregard, a menina fútil e competitiva; e Mike Teavee, o viciado em televisão. À medida em que os quatro são eliminados pelas falhas advindas de sua má criação, os Oompa Loopas, povo diminuto que trabalha na fábrica, cantarola cantigas moralizantes que transmitem os pensamentos de seu autor, que sempre se preocupou em contar histórias que tivessem um efeito positivo sobre as mentes jovens. Sua narrativa é simples em seu desenrolar e consegue criar uma forma de entretenimento educativo. Tal mensagem atinge o público leitor de faixas etárias bem distintas. Tanto crianças como adultos se encantam com a mensagem de que a sorte favorece aquele que é humilde. Charlie vence a competição sem saber que o grande prêmio ao final seria se tornar o herdeiro do excêntrico Wonka, que ainda lhe ensina que o valor real da vida não é o dinheiro, mas o amor de uma família. Dahl fez de Charlie a personificação de sua visão de mundo em que a recompensa vem para quem é puro de coração. Ferrenho crítico da televisão, o autor escreveu um poema apontando o perigo de ser criado de frente para um aparelho de TV, posição essa que espelhou através do personagem de Mike Teavee. Quando o livro foi publicado pela primeira vez, no entanto, os editores ficaram preocupados com a descrição dos Oompa Loompas, que segundo as palavras do autor seriam pigmeus com a cor de pele escura. Vivia-se na ocasião a época dos conflitos com os direitos civis e a editora temia que isso atraísse acusações de racismo, levando o autor a mudar a descrição dos Oompa Loompas a partir da segunda edição.

 

Durante sua carreira de escritor, Roald Dahl sempre se empenhou em criar uma narrativa simples, mas de mensagem consistente, o que repetiu em outras obras. Em James e O Pêssego Gigante (James & The Giant Peach), de 1961, retratou a carência de pais através da história de um menino órfão que interage melhor com os insetos que moram na citada fruta do que com  as tias cruéis que o adotaram. Igualmente carente é a menina Matilda, do livro homônimo publicado em 1988, que é mal compreendida pelos pais trambiqueiros, que não aceitam bem o fato de sua filha preferir os livros à televisão. O entendimento entre pais e filha piora ainda mais quando ela revela possuir dons sobrenaturais. Dahl gostava de inserir elementos de fantasia em meio à realidade de crianças que, por algum motivo, fosse sua realidade social fosse problemas familiares, enfrentam adversidades às quais se sobrepõem por sua pureza de caráter. Em As Bruxas (The Witches), de 1983, por exemplo, um menino vai morar com sua avó depois de perder seus pais. A avó lhe conta histórias de bruxas e como reconhecê- las, o que acaba ocorrendo quando viaja para ouvir o testamento de seus pais. O menino descobre uma convenção de bruxas e seu plano para acabar com as crianças. A família nunca é esquecida pelo autor, que volta a lhe dar grande importância em O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox  de 1970), imediatamente antes de escrever Charlie & O Elevador de Vidro (Charlie & The Great Glass Elevator), continuação de A Fantástica Fábrica de Chocolate, publicado em 1972 e que, em vida, nunca permitiu que fosse adaptado para o cinema por ter ficado extremamente descontente com a adaptação de 1971 dirigida por Mel Stuart e estrelada por Gene Wilder como Willy Wonka.

 

Roald Dahl repudiou essa adaptação cinematográfica. A princípio, o próprio autor ficara a cargo da adaptação do texto, mas a demora em cumprir os prazos fez com que ele fosse substituído por David Seltzer. As mudanças que se seguiram na história desagradaram muito ao autor. Primeiro, repudiou a escolha do ator americano Gene Wilder para o papel de Willy Wonka, que para ele não era o principal personagem e foco da narrativa, e sim o menino Charlie. Como a Quaker Oats era a patrocinadora do filme para o qual investira 3 milhões de dólares, chegando a produzir barras de chocolate Wonka como parte da campanha promocional, o título do filme veio a ser rebatizado Willy Wonka and The Chocolate Factory. Lamentavelmente, as barras de chocolate derretiam muito rápido e tiveram de ser recolhidas das lojas antes que estragassem.  Das canções escritas pelo próprio Dahl, somente uma delas foi usada, sendo as demais canções compostas exclusivamente  para o filme. Na sequência em que a menina Veruca é eliminada da competição, o texto original traz esquilos que separam as nozes boas das ruins. A menina Veruca invade a sala dos esquilos porque quer ter um dos animais e, por isso, é jogada fora da sala pelos próprios animais. No filme de 1971, os esquilos são trocados por gansos e as nozes por ovos. Na versão de Tim Burton de 2005, os esquilos e as nozes são mantidos.  As filmagens foram feitas na Alemanha e foi difícil para o departamento de elenco encontrar pessoas de baixa estatura para interpretar os divertidos pigmeus, pois durante a era nazista, anões e outras pessoas consideradas imperfeitas eram simplesmente mortas. Os pequeninos, incluindo entre eles uma mulher, não falavam inglês e tiveram grande dificuldade para cantarolar os números musicais. Além disso, os cenários extremamente coloridos despertaram comentários maldosos de que o filme parecia uma viagem psicodélica de drogas. Mais de 150 mil litros de água misturada com creme e chocolate foram usados para criar o rio de chocolate, o que resultou em uma mistura que, em pouco tempo, passava a exalar um cheiro desagradável, incomodando a atores e equipe, o que atrasou as filmagens.

 

Matilda | Foto: SHutterstock

 

Quando Tim Burton filmou a nova versão da história, conseguindo permissão dos herdeiros de Roald Dahl, prometeu corrigir tudo o que o filme de Mel Stuart modificou. Além de ter mantido o título original (Charlie & The Chocolate Factory), Burton foi mais fiel ao texto. A escolha de Johnny Depp, que era alérgico a chocolate quando criança, para o papel de Wonka, no entanto, deu ao personagem um visual por demais caricatural e preso aos maneirismos do ator. Ainda assim, a fidelidade do filme à obra é mais visível e ganha na tela a cada criança eliminada, o que reflete a visão de seu escritor. As canções de Dahl foram utilizadas (quatro delas) e a sequência dos esquilos, trocados por gansos no filme anterior, foi mantida tal qual no livro. Para os Oompas Loompas Burton usou o ator Deep Roy multiplicado digitalmente para parecer às centenas, que nas sequências musicais era dublado por Danny Elfman, cantor, compositor e eventual colaborador de Burton. O papel de Wilbur Wonka (Christopher Lee), pai de Willy, foi escrito especificamente para o filme, não existindo, portanto, no texto de Dahl.

 

A carreira de Dahl, no entanto, foi ainda maior que a de um escritor de histórias infantis. Lutou na Segunda Guerra, escreveu um conto sobre um acidente que sofrera na Líbia, desenvolveu uma válvula útil para tratar a hidrocefalia (movido por um acidente sofrido por seu filho de quatro meses), fez outros trabalhos de caridade que o destacaram como um grande humanista, tendo ajudado nas áreas médica e educativa, escreveu roteiros de cinema (incluindo Com 007 Só Se Vive Duas Vezes, estrelado por Sean Connery), escreveu contos de terror para adultos e canções para o livro A Fantástica Fábrica de Chocolate. Recentemente, o livro O Bom Gigante Amigo (The Big Friendly Giant), que Dahl escrevera em 1982, e para o qual batizou a protagonista com o nome de sua neta Sophie, recebeu adaptação feita por Steven Spielberg. Nele, o autor fala da inusitada amizade entre uma menina humana e um gigante de bom coração, voltando a falar dos rejeitados, dos obstáculos impostos em uma realidade misturada à fantasia, conseguindo agradar a crianças e adultos.

 

Falar em linhas gerais não permite alcançar a magia ou a mensagem de seu autor, o galês Roald Dahl, que completa seu centenário em setembro de 2010, data aguardada por seus herdeiros e fãs com um grande evento, o Roald Dahl Day conforme anunciado no site oficial “roalddahl.com”, o que mostra que há muito mais do que chocolate na fantástica fábrica de sonhos que há décadas é redescoberta pelo público.

 

 

*Adilson de Carvalho Santos é Professor licenciado em Inglês e respectivas literaturas pela UERJ e licenciado em Português e Literatura pela UNIGRANRIO. Autor de artigos sobre cinema e adaptações literárias em blogcineonline.wordpress.com.