A ética do fazer pedagógico

Há confusões que devem ser esclarecidas e há práticas que precisam ser questionadas

Por Hamilton Werneck* | Foto: Reprodução Internet | Adaptação web Caroline Svitras

Ética vem do grego (éthos) – Corresponde ao modo de ser, a um conjunto de valores que orientam o relacionamento entre os humanos, garantindo o bem-estar social.

 

Portanto, quando falamos em ética, estamos nos ligando a uma abrangência maior, a valores que orientam na direção de um equilíbrio social. Quando falamos em ética, não existem regras estabelecidas ou penalidades para alguma falta cometida.

 

Moral vem do latim (mores) – Conjunto de regras que regulam o comportamento humano (educação, tradição, cotidiano). A moral tem caráter obrigatório.

 

Assim sendo, se um professor julgar que tem o direito de chegar depois do horário estipulado para ministrar as suas aulas, ele não atinge a ética, e sim a moral. O seu contrato de trabalho estabelece um tempo para as aulas e há um contrato assinado que regula a relação entre as partes. Uma falta, portanto, pode receber uma penalidade que envolva desde a chamada de atenção deste profissional até o desconto em seu salário.

 

Por esta razão, diz-se que a ética é teórica e a moral é prática e, numa outra visão, que a ética é juíza da moral. Quando um professor julga em sua consciência que deve atender a um aluno para tratar de assuntos fora da disciplina que leciona e que envolvam aspectos pessoais do aluno, ele está assumindo uma atitude ética. A dedicação a essa causa vai além do contrato de trabalho, trata-se de uma deliberação livre por parte do professor e se ele não quiser atender ao aluno, em nada poderá ser recriminado.

 

Foto: 123 Ref

 

Nas escolas e nas salas de aula há situações difíceis de controlar para se poder definir a questão como falta de ética ou moral. Por exemplo: se algumas questões de avaliação estão acima do nível de dificuldade em relação às aulas ministradas e explicações desenvolvidas, tanto os pedagogos como os supervisores terão problemas sérios para fazer essa identificação. Torna-se muito difícil estabelecer até onde a dificuldade da avaliação está acima da explanação. Neste caso, trata-se de uma questão ética. São os valores que norteiam a visão docente que determinarão a dosagem mais correta para as questões aplicadas na avaliação.

 

Costumamos dizer que três verbos indicam se a atitude foi ou não ética: quero, posso e devo; se eu quero fazer, posso fazer e devo fazer, seguramente será uma ação ética. Porém, se houver entre eles algum “não”, certamente a ética estará comprometida. Então, se quero, mas não posso; se posso, mas não devo; se devo, mas não quero, certamente a ética estará arranhada.

 

A base teórica para nortear o trabalho docente será a estrutura de valores e na sociedade pós-industrial os valores mudaram muito, a ponto de cada atitude envolver tanto situações novas e imprevisíveis quanto pessoas despreparadas para analisá-las.

 

Se uma instituição de ensino desejar ter um comportamento ético por parte de seus educadores, docentes ou não, precisará constantemente analisar situações para que os valores possam ser repensados.

A pedagogia revolucionária de Rubem Alves

 

As escolas enfrentam problemas muito mais por uma razão ética. Não sabem o que fazer porque desconhecem os estatutos da criança e do adolescente, apenas falam mal do que não conhecem; os educadores não sabem o que exigir dos alunos por desconhecimento do projeto; muitos ainda confundem autoridade com autoritarismo, e os alunos fazem o que pensam porque, por sua vez, desconhecem as próprias obrigações. O mesmo acontece com as famílias que se eximem de responsabilidades porque também desconhecem o que a legislação estabelece. Na Suíça, se um pai ou responsável não regulariza as faltas do filho numa escola pública, a lei federal manda suspender o salário do pai através da empresa onde ele trabalha. O país investe e exige ação responsável de quem tem a guarda da criança. Esta questão concreta é tipicamente moral, tem regras e execuções. Nossa situação é uma tremenda falta de ética porque as pessoas não sabem o que deveriam saber e não se consegue exigir o conhecimento de todos.

 

Aprendizagem Significativa

 

A ética do fazer pedagógico não pode conviver com a incoerência e há momentos que recordo em minha vida de pedagogo nômade, palestrando pelo Brasil, algumas cenas em que os alunos, mesmo sendo “indisciplinados”, estavam absolutamente dentro de uma coerência ética.

 

 

 

 

 

 

 

Por fim, uma consideração sobre a ética de todo o sistema educacional. Currículos que servem para pouca coisa, disciplinas que são mantidas como garantia de trabalho de titulados de antanho, práticas que não servem para a construção de um ser humano equilibrado entre a formação técnica e humana só servem para treinar mais monstrinhos, não cidadãos para atender às exigências de uma pátria em transformação.

 

Em suma, é altamente ético em nossos dias conjugar o ensino com tecnologia e a educação com afetividade.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 55

Adaptado do texto “A ética do fazer pedagógico”

*O professor Hamilton Werneck é pedagogo, escritor e palestrante. <www.hamiltonwerneck.com.br>