A escrita como fato social

Por Rita Rita Cassia Milharci* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O que é escrever bem?

 

Não podemos restringir a resposta a essa pergunta avaliando apenas regras impostas pelo aprendizado da gramática nem modelos desatualizados de “redação”. Embora a palavra ainda seja usada comumente nos dias atuais, como por exemplo: redação de vestibular, redação do ENEM entre outros, o que nos importa é o que foi produzido pelo emissor dentro de um contexto no qual o receptor consiga perceber todo o processo que o levou a construir sua mensagem. Partindo do ensino jesuítico, no qual o interesse era apenas catequizar os “selvagens”, passando pelas línguas formadoras do nosso idioma, pelas diversas mudanças educacionais, pelos interesses dos governantes, pelas mudanças culturais ocorridas aqui e no mundo; tudo contribui para que os interesses dos alunos mudem, procurem novos focos. Do mesmo modo, as exigências do mercado de trabalho apontam para um cidadão versátil, capaz de enfrentar os mais diversos desafios. Porém, tudo isso tem um princípio.

 

Aprender a ler e a escrever: uma possibilidade de inclusão social

 

Para que uma casa funcione bem é preciso de metodologias, de regras; assim como uma indústria, uma escola e um país. Uma criança começa a balbuciar algumas palavras logo no primeiro ano de vida e vai aumentando seu vocabulário à medida que vai vivenciando o mundo. Ao entrar na escola, já possui um vasto vocabulário, mas precisa aprender a decifrá-lo de outra maneira para que, consequentemente possa transformá-lo e então registrá-lo nos mais diferentes modos. A gramática entraria nessa fase da aprendizagem como se fosse o manual de instrução da língua escrita e, por que não, da língua falada também. Colocar uma criança em contato com os mais diversos tipos de texto é inseri-la num mundo civilizado e culto. É abrir-lhe as portas do conhecimento, é dar-lhe condições de poder expressar-se, de poder encontrar seu lugar no mundo enquanto cidadã.

 

Os textos não são apenas um enorme número de palavras colocadas numa determinada ordem. São muito mais do que isso. Os textos têm vida. Os textos nos informam, nos ensinam, nos fazem sonhar, nos defendem, nos acusam, nos entristecem, nos fazem rir. Cada texto tem seu objetivo. Quando cobrado a produzi-lo, o aluno deve ter noção do seu propósito. Assim como o propósito do ensino do português é hoje, mais do que nunca, fazer com que o aluno seja crítico do seu statu quo. Enquanto a língua portuguesa ainda não havia se estabelecido completamente por aqui, não admira que o ensino baseava-se no latim e em modelos adotados na Europa. Falava-se uma língua e ensinava-se a escrever outra.

 

Isso lembra o personagem Macunaíma, do livro homônimo que, ao chegar em São Paulo, espanta-se ao ver que as pessoas falavam uma língua, mas escreviam outra. A língua que deu origem à nossa também não era a mesma que as pessoas instruídas da época escreviam. Nossa língua é filha do latim vulgar, daquele latim que era passado de boca em boca, sem registro em textos. Hoje, além do português, temos o “internetês”: esse modo totalmente particular de as pessoas se comunicarem pela rede mundial de computadores. Como o português deve ser ensinado nesse mundo em que, por parte dos alunos, não existe uma preocupação formal com a língua falada e muito menos com a escrita?

 

Sobre a leitura

 

O primeiro passo necessita ser o de mostrar que a língua existe para que ele se comunique de maneira clara, objetiva e fluente nas diferentes atividades e compromissos de que toma parte. A gramática é o primeiro passo para norteá-lo no uso correto do seu idioma. Não há como fugir. Algumas regras são essenciais. Devemos também apresentar-lhes textos variados e especificar os veículos em que circulam para que construam o sentido dos mesmos. Para quem adquiriu o hábito da leitura desde cedo e o aprecia, qualquer texto será bem-vindo. Para aqueles que se mostram irredutíveis, precisamos cercá-los com textos que estejam de acordo com sua experiência de vida, com seu conhecimento de mundo. Neles, o aluno se identificará e terá mais prazer na leitura. A partir daí, conseguirá perceber o papel social que a escrita desempenha.

 

Estamos numa época em que a informática domina o mundo. A necessidade de comunicação é inata ao ser humano desde os primórdios da civilização. Desta maneira reconstruímos a trajetória da humanidade e continuaremos deixando nossos registros na história. Quando a Nova Constituição, na Segunda República destacou que “a educação é direito de todos”, estava aberta a porta para a democracia, declarado o fim da desigualdade, o fim da educação elitizada e a oportunidade para que o Brasil possua “cidadãos críticos e protagonistas do espaço social”.

 

 

*Rita Cassia Milharci é é formada em Letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André, formada em Língua Inglesa pela Cultura Inglesa e União Cultural Brasil Estados Unidos. Possui especialização em Língua Portuguesa pela UNICAMP, cursou Tradução e Filosofia pela USP é Professora em Exercício na Rede Estadual de Ensino de São Paulo.

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 61