A escola no mundo contemporâneo

Por Lupércio Aparecido Rizzo* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

A quinta-feira é um dia especial e marcante na minha vida, porque me faz lembrar de um fato corriqueiro: a feira-livre. Lembro-me de minha mãe naquelas manhãs, assim como de muitas outras mães que saíam de suas casas com seus carrinhos de feira ou sacolas de lona – que vão voltar à moda, quem diria – e se dirigiam para a rua onde acontecia a feira. Eu, sempre que podia, ia junto para ganhar um suco que vinha dentro de um plástico em forma de carrinho e quando dava comia até um pastel, mas isso era bem mais raro, tempos difíceis… Época da caderneta na quitanda, do lápis descansando na orelha do português da padaria, dos carrinhos de rolimã descendo nervosos a ladeira fazendo um zunido sem igual.

 
Sabe outra coisa que me lembro muito bem? As pessoas paravam para conversar, jogavam conversa fora enquanto os meninos brincavam nas ruas gastando seus kichutes, brincando de pica-esconde, e riscando um tijolo da obra da esquina no asfalto para improvisar a quadra. Meias velhas eram disputadas para compor a estrutura da bola de meia. O tempo passou rápido demais.

 

Juventude e a literatura

 
O que mais me chama atenção quando comparo aqueles tempos com o mundo contemporâneo é a velocidade das coisas. Hoje tudo parece caminhar muito rápido, quando percebemos já é meio do ano, já é tarde, o prazo para entrega de algo esgotou, e assim vai. O tempo parece que nos cerca, fica a corroer nossas relações e nos pregando peça, é inalcançável.

 
Veja esse pequeno texto, começou a ser escrito porque a internet “caiu”, nasceu de um tempo encontrado com a ajuda dos deuses da tecnologia que ao que parece, decidiram “dar” um tempo. Isso para não comentar o fato de que ainda que o sistema seja rápido e eficiente, parece sempre mais lento do que minha expectativa. Nem parece que a maioria dos meus contemporâneos viu a internet substituir o fax, que por sua vez tomou parte do lugar ocupado pelas cartas. Que vimos a comunicação via computador começar de forma discada, com um assovio no ouvido e uma barra que mostrava o carregamento de uma página… Se hoje clamamos por velocidade, imagina comparar com o que nós mesmos usávamos.

 
O problema é que hoje corremos para ganhar tempo para depois ocupar os minutos acumulados a muito custo, e quando estamos sem o que fazer dizemos que precisamos de algo para matar o tempo, oras, tempo gasto conosco nunca é “matar”, é na verdade, “ganhar”. Irônico dizer que em determinadas ocasiões nos deparamos com um fim de semana sem compromissos e lastimamos por isso, alguém se apressa em dizer que é um tédio um final de semana sem ter o que fazer. Não ter o que fazer ou não fazer nada parece ser algo digno de culpa.

 

Contos de fadas na formação moral humana

 
Creio que isso acompanha a tendência pragmática da sociedade, faz-se algo aqui para ter um retorno ali. Priorizamos aquilo que é mais importante, mas qual é o problema? Sempre foi assim. Isso é certo, mas talvez devamos pensar no que foi colocado como mais importante, no que priorizamos.

 
Conhecer o vizinho, conversar despretensiosamente, atos como esses são cada vez mais raros. O professor Cortella lembra que antigamente quando vinha alguém na rua tarde da noite as pessoas se sentiam aliviadas por não estarem sós, portanto, desprotegidas, mais hoje pensamos: vem vindo alguém, é melhor andar mais rápido. Realmente algo parece ter ficado pelo caminho.

 

Mário Sérgio Cortella é um eminente filósofo, escritor, educador e professor universitário é também professor titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e de pós-graduação em Educação da PUC-SP, além de professor-convidado da Fundação Dom Cabral. Ocupou o cargo de Secretário Municipal de Educação de São Paulo (1991-1992), durante a administração de Luiza Erundina e foi membro-conselheiro do Conselho Técnico Científico da Educação Básica da CAPES/MEC. Fez o programa “Diálogos Impertinentes” na TV PUC, no Canal Universitário.

 
E a escola nesse processo? Ensinamos nossos alunos à convivência? Ensinamos a olhar o outro ou lhes dizemos para estudar para alcançar seus objetivos? Parece-me que quando escolhemos prioridades, e o devemos fazer, temos que tomar decisões importantes, decisões que ajudam a modelar o caráter das pessoas. O sinal de alerta deve acender quando nos preocupamos excessivamente com aquele conhecimento que aparentemente é mais importante, a transdisciplinaridade de Edgar Morin talvez seja um sonho, mas uma humanidade mais horizontal, um olhar mais holístico esse sim é possível. Esse olhar estava nas manhãs de quinta, no cheiro da feira, na gritaria dos feirantes, no tempo ouvindo o outro. Ouvimo-nos naturalmente ou apenas quando o tempo assim o exige? Esse ouvir talvez não leve de fato em conta o que o outro tem para dizer por que não se trata de uma escuta ativa. Essa escuta deve ser trazida para a escola, essa é a que devemos ensinar.

 
Há de se cuidar para que a racionalização não seja a forma como vemos o mundo, é essencial que percebamos que assim como cada instante do tempo é único, cada indivíduo deve ser assim encarado, valorizando a diferenciação e o momento de cada ser como algo especial.

 

Hannah Arendt trabalhou, entre outras atividades, como jornalista e professora universitária e publicou obras importantes sobre filosofia política. Contudo, recusava a ser classificada como “filósofa“ e também se distanciava do termo “filosofia política“; preferia que suas publicações fossem classificadas dentro da “teoria política“. Arendt defendia um conceito de “pluralismo“ no âmbito político. Graças ao pluralismo, o potencial de uma liberdade e igualdade política seria gerado entre as pessoas. Importante é a perspectiva da inclusão do Outro. Em acordos políticos, convênios e leis, devem trabalhar em níveis práticos pessoas adequadas e dispostas. Como frutos desses pensamentos, Arendt se situava de forma crítica ante a democracia representativa e preferia um sistema de conselhos ou formas de democracia direta. Entretanto, ela continua sendo estudada como filósofa, em grande parte devido a suas discussões críticas de filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Immanuel Kant, Martin Heidegger e Karl Jaspers, além de representantes importantes da filosofia moderna como Maquiavel e Montesquieu. Justamente graças ao seu pensamento independente, a teoria do totalitarismo (Theorie der totalen Herrschaft), seus trabalhos sobre filosofia existencial e sua reivindicação da discussão política livre, Arendt tem um papel central nos debates contemporâneos.

 
A escola precisa cada vez mais dar conta das expectativas da sociedade, mas parece que estamos nos aproximando do que Hannah Arendt temia nos idos dos anos 50: Estamos ensinando um fazer desapegado do pensar, nunca a informação foi tão disponível e rápida, mas o conhecimento e o trato das informações não acompanharam a evolução. Creio que é cada vez mais importante lembrar-se de Bob Talbert que nos chamou a atenção: “Ensinar a contar é importante, mas bom mesmo é ensinar o que realmente conta.”
O que conta de verdade?

 

 

*Lupércio Aparecido Rizzo é Doutorando em Filosofia da Educação pela USP, Mestre em Educação pela Universidade Nove de Julho – UNINOVE. Graduado em Pedagogia. Autor de livros para cursos de graduação. Coordenador da Pós-Graduação de Ensino Superior no SENAC Santo André. Professor no curso de Pedagogia na UNIESP Santo André

Adaptado do texto “Prioridades…”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 61