A educação, por Ziraldo

Um moço maluquinho

Por Luzdalva S. Magi | Foto: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 


Ziraldo Alves Pinto é mineiro de Caratinga, nasceu em 24 de outubro do ano de 1932. O criador de O Menino Maluquinho combina várias habilidades, entre elas, cartunista, cronista, caricaturista, escritor, dramaturgo, pintor e, sobretudo, é um brasileiro que utiliza sua obra para contribuir com a educação de seu país.
A Turma do Pererê, primeiro grande sucesso

Pererê, primeira revista em quadrinhos totalmente produzida em cores no Brasil, foi lançada em 1960, e alcançou uma grande tiragem, mas foi cancelada no início do regime militar, em 1964. Embora tenha sido relançada mais tarde, na década de 1970, pela Editora Abril, não obteve o mesmo resultado da época anterior. A Mata do Fundão e a fábula irreverente de Ziraldo não seriam muito bem aceitas nos anos de chumbo — animais falantes, índios e fazendeiros eram a representação lúdica de uma realidade controversa.

 

Foto: Ana Colla | Divulgação

 

 

Anos de chumbo – O Pasquim

O jornal O Pasquim , fundado em 1969, contou com a contribuição de Ziraldo, em uma época em que a “livre expressão” era um sinônimo de “repressão”. Por ser um tabloide de oposição ao regime militar, rendeu ao escritor ameaças e provavelmente tenha sido o motivo de sua prisão, que aconteceu em novembro de 1970, juntamente com toda a redação do jornal. Mesmo assim, O Pasquim foi um tremendo sucesso editorial nos anos 1970, com vendas superando o teto de 200 mil exemplares semanais.

 

 

O Menino Maluquinho, anos 1980

Em 1980, Ziraldo lançou aquela que seria sua mais bem sucedida obra, O Menino Maluquinho, livro que virou filme adaptado para televisão e cinema e que foi um grande sucesso. Por meio do livro é possível resgatar todo um contexto sociocultural, valores e costumes vivenciados pelo autor durante sua infância.

 

“… e a pipa quem fazia era mesmo o menininho, pois ele havia aprendido a amarrar linha e taquara, a colar papel de seda e fazer com polvilho o grude para colar a pipa triangular, como o papai lhe ensinara do jeito que havia aprendido com o pai e o pai do pai o papai…”

Ziraldo, (1980, pág.18).

 

 

Foto: Divulgação

A originalidade de Flicts

Com o livro Flicts, Ziraldo ganhou o prêmio internacional Hans Cristian Andersen. Um tanto poético e um tanto existencial, o livro conta a história de uma cor solitária e rejeitada chamada Flicts. Todas as demais cores possuem um traço de personalidade, algumas são quentes, outras frias e outras neutras, mas Flicts não se parecia com nada e em nada se representava. O triste e desajeitado Flicts segue seu caminho tentando se encontrar e se traduzir. Um livro para crianças de tamanha profundidade era mesmo de se esperar que fosse vencedor do prêmio considerado o mais importante da literatura infantil.

“Ziraldo é um artista de bom calibre porque é capaz de criar um mundo particular por meio de suas obras. O seu Brasil não é o país atual, mas dos anos 50 para trás, mais otimista, mais solidário, menos perigoso e muito mais inocente. (…) A obra de Ziraldo não valoriza o saber nem os valores cosmopolitas, sem pátria e sem raízes, da aldeia global, mas a cultura tradicional, de um mundo anterior à televisão – onde o que é importante se aprende com os pais, ou, melhor ainda, com os avôs.” (G. Camarotti)

 

Fonte: Divulgação

 

 

A educação, por Ziraldo

De acordo com o cartunista e escritor Ziraldo, a única saída para a evolução da educação é a prática da leitura, ler ainda é o melhor remédio, tanto para a interpretação quanto para a produção textual. Em suas entrevistas, ele faz questão de enfatizar a importância da leitura crítica e também apenas como entretenimento. Em suas palavras, “menino tem, antes de tudo, que aprender a ler e escrever como quem respira. Com um detalhe: tem que aprender a gostar de ler, a descobrir que o livro é o melhor amigo…”, ele ressalta o quanto a literatura é capaz de ampliar a visão de mundo, fundamentar a cidadania e elevar competências e habilidades. Para o autor, leitura não é obrigação e sim um hábito que deve ser agradável e enriquecedor.

 

Para Ziraldo, o individuo só está preparado quando sabe ler, escrever e interpretar aquilo que leu. Em sua opinião, a leitura possibilita que a pessoa adquira autonomia, o objetivo é fazer com que o brasileiro comece a gostar de ler desde a infância.

 

 

O escritor mineiro é presença constante nos eventos voltados para a educação, não raro encontramos referências suas no que diz respeito ao assunto. Tornou-se um especialista e observador da questão educacional no país; à medida que seus livros foram sendo adotados pelas escolas, teve sua figura vinculada de forma indelével no cotidiano pedagógico. Em entrevista, Ziraldo afirma que a escola fundamental no Brasil subsiste pelo espírito heroico e apaixonado dos professores e que é uma pena que em questões de educação, algo primordial, seja necessário o heroísmo.

 

Interagir com a criança, participar do ato de leitura em conjunto, transformar o momento em algo especial, cultural, é a forma de inserir essa prática em nossa sociedade, de acordo com o escritor, ler deve ser com prazer, se o professor não sente prazer em ler dificilmente conseguirá bons resultados com seus alunos. Para o cartunista, se a criança conseguir o total domínio da leitura e da escrita após a alfabetização, então, ela estará pronta para o ensino sistemático envolvendo outros campos da aprendizagem.

 

Em entrevista dada à revista Cult, Ziraldo diz que quadrinhos já não fazem parte de uma cultura de massa, hoje é vanguarda, as edições são perfeitamente criadas por linhas de produção, a marca de exclusividade do autor se distancia. Considerado muito “popular” por alguns, gênio por outros, a verdade é que o trabalho de Ziraldo segue influenciando, incentivando, despertando e suavizando corações e mentes.
Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 51