A educação no Brasil precisa evoluir

A escola, como instituição, está aquém das necessidades dos estudantes e do mercado de trabalho

Por Hamilton Werneck* | Fotos: Shutterstock / 123 Ref | Adaptação web Caroline Svitras

Esta triste constatação leva a crer que o sistema de ensino está preparando desempregados. Os currículos e programas são do século XIX pela segmentação cartesiana que apresentam, pelas metodologias ultrapassadas, onde os estudantes são totalmente passivos. Ouvem aulas, decoram e esquecem. Os investimentos em educação, mesmo com os 10% do PIB que colocará o Brasil entre os cinco países do mundo que investem este percentual, não resolverão o problema se não tivermos uma reformulação curricular que contemple a complexidade, a diversidade e o modelo sistêmico. Os estudantes precisam ter experiências empreendedoras enquanto aprendem. Os professores são do século XX porque os do século XIX estão aposentados ou mortos. A mentalidade deles é formada por uma universidade que se esconde atrás da autonomia para desenvolver um perfil de profissional superado. Não há, na formação do professor, uma visão de conexão. Há pouca leitura na universidade e os profissionais estão preparados, quando muito, para a sua especialidade, sem visão periférica. Trabalham, porque assim foram formados, como se a disciplina que lecionam terminasse dentro de seus limites. Não ligam os assuntos de uma disciplina à outra. Isto reforça o fato de que a escola está muito distante da vida. Os estudantes são o reflexo de seu tempo. Eletrônicos, vivendo com muitas informações, precipitados nos julgamentos, invadidos pela imagem e pelo áudio. Um cartunista expressou-me de modo magnífico quando num diálogo entre alunos um perguntou se o outro lera o livro de Machado de Assis. A resposta foi pronta: – Escutei no áudio book. Porém, na hora da prova o que ouvira e não lera pergunta ao colega: – Traição se escreve com xis ou com dois esses? Recentemente três colegas de magistério publicaram um livro, na cidade de Santarém, no Pará, no qual apresentam o celular como ferramenta de aprendizado. Pareceu-me excelente.

 

O livro apresenta excelentes sugestões. As universidades precisam dialogar mais com as Secretarias estaduais e municipais de educação, com as escolas do sistema particular de ensino e com os alunos para, exatamente, discernir melhor sobre o que ensinar aos futuros professores. Não se pode conceber um professor recém-formado sem saber organizar um plano de ensino, preparar uma aula e alfabetizar uma criança. Um professor necessita saber bem o conteúdo a ser ensinado e suas relações com a vida e outras disciplinas, dentro de uma visão interdisciplinar e transdisciplinar. É necessário, desde a faculdade superar a ideia dominante de multidisciplinaridade. Além disso, todos precisam ter habilidades para que os estudantes tenham interesse em aprender, além da compreensão da linguagem para que todos entendam o que o professor fala.

 

Invista no potencial dos alunos-problema

 

Como a educação é uma atividade que trata muito além do simples conhecer, os professores precisam, mais que nunca, ensinar a conviver porque, hoje, somos professores de órfãos de pais vivos. Esta trilogia apresentada no título está sendo perpetuada porque os professores estão despreparados, porque o magistério aceita uma série de não professores em seus quadros. Eles conhecem o assunto, porém, podem não saber ensinar uma coisa a alguém. Os salários não são atraentes e há uma fuga desta profissão. Citemos um exemplo: um acadêmico de matemática ao terminar o seu bacharelado percebe que exercendo a função de matemático no mercado financeiro, ganhará mais que no magistério. Nesse caso, ele completa a licenciatura e passa a ministrar aulas em quantidade muito pequena, apenas para não ter que devolver o valor do curso quando este for feito numa unidade de ensino particular e liberada de devolução em caso de aprovação num concurso público. Mas, este que foi preparado para ser professor, acaba permanecendo a maior parte do tempo no mercado financeiro. A sociedade precisa valorizar o professor e os docentes necessitam conhecer melhor sobre o que fazem para terem autoridade para exigir o respeito da sociedade.

 

Gestores há que ainda têm visões otimistas em relação aos indicadores da educação apresentados pelo IDEB e calculam que, em breve superaremos esta questão programática e de formação dos professores. Há valores e contra valores. Creio que se trata de um absurdo encontrarmos municípios felizes porque subiram no IDEB, enquanto a média de algum segmento não chega ao nível de 40%. Se for verdade que melhoraram, esta melhora não é significativa. O desempenho dos alunos na segunda fase do fundamental e, sobretudo, no ensino médio é muito baixo em todo o país. Poderíamos dizer que, em se tratando de ensino médio, nenhum estado da União Federal pode comemorar os resultados. Todos são sofríveis. O desprezo pela educação fez com que o ensino médio fosse o maior penalizado. Trata-se do segmento onde faltam mais professores. E a formação de licenciatura plena exigida indica ao profissional que ele pode seguir outros caminhos com mais vantagem financeira. Temos ilhas de qualidade e excelência quando o comprometimento dos professores e de toda a equipe acadêmica se faz sentir no âmbito da escola, onde as famílias são colaboradoras e conhecem o projeto da escola. As experiências de tempo integral tem facilitado a recuperação dos alunos, embora haja timidez na aplicação por falta de espaço, de verba e de professores formados para esse fim. Não adianta, apenas, mudar currículos e formação dos professores se não houver uma observação cuidadosa do novo tipo de aluno que se encontra em nossas escolas.

 

 

O que pode ajudar é o avanço que o II PNE trouxe em sua formatação, no entanto ele não pode representar um ato de se fazer mais do mesmo. Temos de criar um ensino integral quanto ao tempo e formação dos estudantes. Os dados recentemente publicados sobre a nossa demografia e distribuição das várias faixas etárias indicam que teremos uma população mais velha, necessitando de jovens no mercado de trabalho com um potencial muito maior para agregar valores aos produtos. Tal coisa só se consegue com uma educação de qualidade e com o incremento do ensino técnico, fato relevante e diferente em muitos estados brasileiros. Se todos estes elementos forem conjugados na busca de soluções podemos deixar os currículos ultrapassados do século XIX, melhorarmos a formação dos professores para compreender as mudanças deste século, inclusive do novo perfil de aluno.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 60

Adaptado do texto “Programas so século XIX, professores do século XX e alunos do século XXI”

*Professor Hamilton Werneck é pedagogo, escritor e palestrante. Reconhecido como professor titular para o ensino superior pelo CNE, pertenceu ao Conselho Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro. Assessor educacional da Universidade Cândido Mendes. Especialista em Administração Escolar e Orientação Educacional. Doutorando em Educação.