A aula de psicologia em Divertida Mente

Da mente infantil às telas dos cinemas brasileiros, o novo sucesso dos Estúdios Pixar — a animação norte- americana Divertida Mente — tem divertido crianças, adolescentes e adultos.

Por Maria Dorothea Barone Franco* | Adaptação web Caroline Svitras

 

A história foi idealizada pelo cineasta Pete Docter, cuja trama fílmica traz como protagonistas a simpática garotinha Riley e suas cinco emoçõesAlegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho. São criaturinhas coloridas e falantes que assumem o painel de controle psíquico da menina. Ao contrário das personagens folclóricas de um conto de magia — que integram só características virtuosas, acumuladas na imagem do protagonista, ou características vis, concentradas nas ações do antagonista —, a animação produzida pelos Estúdios Disney apresenta uma personagem criança com comportamentos bons e maus o tempo todo, uma representação mais próxima de um ser humano em um cenário não ficcional de ação.

 
Divertida Mente é uma maneira descontraída para a compreensão do funcionamento psíquico humano. Do nascimento à puberdade, as circunstâncias envolvidas no crescimento de uma menina com 11 anos de idade — chamada Riley — são muito bem representadas por cada uma de suas cinco emoções. Através de estímulos provocados na interação com o meio, sejam eles prazerosos ou desagradáveis, cada emoção passa a viver na mente da garota. De repente, o espectador está diante de uma tela escura, preenchida por uma voz desconhecida. É Alegria quem fala: a primeira emoção que nasce com Riley. Protegida na maternidade pelo aconchegante abraço de seus pais, a garotinha descobre os efeitos divertidos da personagem e, dessa interação, uma experiência afetiva por demais prazerosa acontece. A serelepe Alegria, franzina, com olhos bem grandes e tez amarela, aciona um dos botões que maneja os comportamentos, os pensamentos e as memórias de Riley. Essa atitude faz a menina sorrir imediatamente. A felicidade de Alegria e da criança dura pouquinho. Logo, Tristeza aparece e o choro estridente de Riley também. São duas emoções que se intercalam na manipulação do painel de controle que determina a maneira como Riley reage às experiências de vida que chegam à sua mente consciente.

 
Assim, a trama continua e é preenchida por mais três novas emoções: Nojinho, Raiva e Medo. Os objetos, as situações e as pessoas são impulsos externos, formadores dessa bagagem vital que interfere nos aspectos físicos, psíquicos e emocionais de Riley. Do lado de fora da mente infantil, esses conteúdos impulsionam as ações de cada emoção. São sucessivos acontecimentos ordinários que mobilizam as emoções da história. Uma simples corrida em um dos cômodos da casa, por exemplo, pode ser perigosa para Riley. Então, o Medo troca de lugar com a Alegria e assume o quadro de controle, alertando a garota para tomadas e fios de energia dispostos naquele ambiente. As emoções reagem a tal excitação, provocada por todas essas circunstâncias diárias do lar.

 

 
A hora da refeição é outro momento corriqueiro para a visualização das emoções em ação. O pai de Riley bem que tenta educar sua garotinha para comer verduras, mas o brócolis parece insosso e sem graça. Nojinho toma as rédeas da situação e repele aquele desgostoso estímulo. Advertida sobre a ausência da sobremesa, caso não termine sua refeição, a garota deixa a emoção Raiva atuar, arremessando o prato no chão. A paciência do pai é infinita; ele faz uso de um aviãozinho imaginário com a colher, despertando o interesse da filha, a vontade de provar o brócolis. Alegria monitora, uma vez mais, a mente da menina, que se entretém com a brincadeira do pai. São múltiplos afazeres de rotina que deixam muito ocupadas as cinco emoções.

 
A garotinha da animação de Pete Docter funciona como um espectador externo, capaz de reelaborar toda a composição psíquica, consciente e inconsciente, do indivíduo. Segundo Carl Gustav Jung — psiquiatra que deu seguimento e também ampliou os estudos do médico Sigmund Freud sobre nossos processos psíquicos consciente e inconsciente —, uma oportunidade menos tortuosa para lidar com os conteúdos conscientes e inconscientes é criatividade humana. Graças ao poder de imaginar e simbolizar, o homem evita alimentar doenças emocionais e, posteriormente, o seu ingresso em um comportamento paranoico.

 

 
Indivíduos reais são cúmplices das personagens da animação Divertida Mente na identificação e compreensão de todos esses impulsos que causam alegria ou aflição para as pessoas. A mente consciente lida bem melhor com as experiências felizes de Riley. São elas as memórias-base da menina; todas recolhidas e armazenadas por Alegria em um compartimento próprio. Delas nascem as Ilhas de Personalidade — da Família, da Honestidade, da Amizade, do Hóquei e da Bobeira. Elas fazem de Riley um sujeito. Os acontecimentos infelizes, ou que não têm uma grande importância para a menina naquele momento do seu crescimento, transformam-se em memórias de longo prazo e permanecem latentes no subconsciente (nomenclatura usada nos primeiros estudos de Sigmund Freud).

 
Essa camada psíquica tem acesso mais rápido à consciência de Riley. Já aquelas experiências muito, mas muito dolorosas são despejadas no lixão de memórias. São conteúdos reprimidos na mente não consciente e foram nomeados de sombras por Carl Jung. Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho convivem na mente consciente da garota. Executam ações que, no princípio da história, não são correlatas, mas independentes completamente. Alegria coordena (até demais) as funções das outras quatro emoções. Ela tem a última palavra sempre. Dessa forma, Riley não consegue crescer com plenitude, porque só conhece sucessos e nenhum fracasso. Mas a mente da criança não para, e esse funcionamento se modifica na evolução do enredo.

 

Carl Jung

 
Reconhecemos em Divertida Mente uma maneira lúdica de mostrar a transição desses conteúdos latentes para o consciente de Riley. A menina precisa entender que a vida não é feita de alegrias apenas. Toda criança tem seus maus momentos e suas horas de malcriações. Saber lidar com cada um, e integrá-los às demais experiências, permite o amadurecimento do indivíduo. A repentina mudança de Riley, do estado de Minnesota para a cidade de São Francisco, na Califórnia, aos 11 anos de idade, faz com que abandone, contra a sua vontade, a antiga casa, os amigos, a escola e o time de hóquei para acompanhar sua família em uma viagem para um “mundo” inteiramente novo. O desconhecido é assustador para a emoção Alegria, que programa a mente da garotinha para sentir-se feliz ao chegar no seu novo destino. Ao mesmo tempo, a emoção Tristeza escolhe participar, também, desse processo. Ao tocar nas memórias, essencialmente as divertidas, de Riley, desestabiliza a superficial calmaria na cabeça da menina. Temos um embate entre duas emoções, até agora antagônicas: Alegria e Tristeza. Ambas procuram a melhor forma de compreender essas alterações psíquicas, movimentadas não só pela troca de ambientes, antes conhecidos por Riley, mas pela transformação hormonal, comportamental e emocional, típicas do crescimento.

 
O primeiro dia de Riley na nova escola provoca, involuntariamente, a expulsão das emoções Alegria e Tristeza da consciência da garota. Encarar uma turma de colegas desconhecidos traz um pavor instantâneo; lembrar dos velhos amigos, um certo resquício de melancolia. Para a personagem Alegria, é vital substituir esses conteúdos adversos por memórias alegres. Um impasse instaura-se nesse instante: Tristeza desobedece a emoção Alegria e interfere nas boas lembranças de Riley. Então, o momento pavoroso de apresentar-se para uma classe repleta de novos colegas acaba, meio que sem querer, ocupando um lugar importante nas memórias-base da menina. Na pressa de querer impedir qualquer ação da Tristeza no controle da mente de Riley, ambas as emoções — Alegria e Tristeza — escapam da consciência com essas memórias para o subconsciente.

 

 
A partir desse momento, assumem o controle da mente consciente as outras três emoções: Raiva, Medo e Nojinho. Os excessos de Alegria e Tristeza ocasionaram o desaparecimento de quaisquer vestígios desses sentimentos na consciência de Riley. Ambas as emoções estão perdidas no espaço subconsciente humano; Tristeza e Alegria deverão unir esforços para restaurar o equilíbrio emocional da garotinha. Suas ausências descontrolam o comportamento de Riley. Sem encontrar a alegria para seguir em frente na nova cidade, ou a tristeza para liberar todo o mal-estar com o qual convive na atual situação, a garota começa a conviver, constantemente, com rompantes de raiva, nojo e medo — emoções descontroladas que não permitem seu bom relacionamento com os pais, com os colegas e suas companheiras do time de hóquei.

 
A estrutura psíquica de Riley vai desmoronando aos poucos, e a menina passa a agir com rebeldia e desonestidade no núcleo familiar. O desaparecimento sequencial das Ilhas da Personalidade — da Família, da Honestidade, da Amizade, do Hóquei e da Bobeira — indica a permanecia de uma criança em desequilíbrio com as suas cinco principais emoções. Lá no subconsciente, o trem da imaginação é o único meio de transporte capaz de conduzir as emoções Alegria e Tristeza de volta para a consciência de Riley. Para que isso ocorra, contam com a ajudinha do amigo imaginário da infância da garotinha: Bing Bong. A locomotiva pensante só funciona com Riley desperta. Alegria e Tristeza têm pressa; o retorno com as memórias-base da menina para a consciência poderá restaurar as Ilhas da Personalidade, dando à garota o equilíbrio psíquico necessário para enfrentar as peraltices do crescimento de maneira saudável. Bing Bong, Tristeza e Alegria partem, bem rapidamente, para o local onde os sonhos de Riley são produzidos. Outra vez as emoções entram em discordância sobre o melhor sonho para acordar a menina e mover, mais uma vez, o trem do pensamento. Alegria que produzir um sonho descontraído; Tristeza, um pesadelo. A movimentação de Alegria e Tristeza bagunça o sono da menina. Os guardas do inconsciente são acionados para prenderem as emoções e Bing Bong. Inicialmente, Alegria e Tristeza escapam da apreensão, mas o amigo imaginário de Riley não.

 

A prisão do inconsciente é assustadora! Lá, o monstro que povoa os piores pesadelos de Riley — o palhaço Jangles — encontra-se adormecido. Uma personagem bizarra que canta o pior e mais cavernoso Parabéns a você do mundo. Afinal, Tristeza tinha razão em querer despertar Riley com um péssimo sonho. O sono de Jangles é interrompido e Alegria o convence a cantar, então. Esse impulso inconsciente dá um aviso, alarmante, para a emoção Medo na sala de controle da mente consciente. Medo, apavorado, pressiona repetidas vezes um botão do quadro de controle e acorda Riley.

 

Quando conseguem, finalmente, acordar Riley, Alegria e Tristeza embarcam no trem do pensamento, mas não existe muito que fazer: as Ilhas da Família e da Honestidade desabaram. A locomotiva descarrila. Bing Bong e Alegria caem no lixão de memórias do inconsciente, um lugar onde nada tem cor e vira fumaça só com um toque. Mas Alegria tem uma memória de longo prazo nas mãos. Uma esfera bicolor azul e amarela — as cores dela e da Tristeza. Alegria faz a esfera girar, retroceder e acelerar no tempo. Percebe, então, que o conteúdo ali armazenado foi tocado e alterado por ela e Tristeza simultaneamente.

 

Sigmund Freud

 

A cena armazenada naquela memória  de longo prazo mostra Riley chorando por ter perdido o lance decisivo em um jogo com a sua antiga equipe de hóquei. Aquele instante triste é identificado e (res) significado por seus pais e colegas do time. Todas aquelas pessoas queridas pela menina a envolvem em um abraço coletivo com direito a gritos de guerra, declarando a destreza de Riley com o taco de hóquei. A partir de então, onde havia tristeza, há um momento de alegria supervalorizado.

 

O segredo para o regresso da harmonia psíquica de Riley está no equilíbrio de todas emoções. O “tantinho” de onipotência presente nas ações da emoção Alegria deverá cessar para que Riley volte a ser uma jovenzinha saudável. Como a história termina? Bem…, vale conferir no cinema o desfecho dessa divertida aventura de Riley e suas emoções. As telas das salas de projeção contarão e mostrarão aos espectadores se Alegria reconheceu a importância das demais emoções, principalmente a da Tristeza, nesse trabalho conjunto para deixar Riley crescer física e emocionalmente bem. Afinal, só valorizamos nossos momentos de felicidade porque os comparamos com as infelizes situações, também habituais. A natureza psicológica humana é revista na atual animação da Pixar. Os espectadores de Divertida Mente reconhecerão que conviver boas e más emoções é mais “normal” do que pensamos.

 

 

*Maria Dorothea Barone Franco é doutoranda em Letras pelo Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter. contato: dorotheafranco@hotmail.com

Adaptado do texto “Divertida Mente: quando a alegria sai de cena…”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 63