As cartas de Mário de Andrade

Mário de Andrade é uma das maiores expressões de nossa cultura. Seu trabalho, presença e autoridade constroem nosso Modernismo. Já o conjunto de sua obra é um dos maiores diálogos (se não o maior) que temos com a cultura brasileira, sua história e imaginário.

Por | Fotos: Reprodução Internet | Adaptação web Caroline Svitras

 

Entre nós, ninguém mais que o poeta tentou sua sensível apreensão e entendimento. Para tanto, Mário tornou-se trezentos, isto é, um homem de interesses múltiplos, com pesquisa séria em áreas diversas. Nele, se encontram o literato, o folclorista, o musicólogo, o esteta, o crítico de arte, o ensaísta, o etnógrafo, o professor. Em Mário, encontramos o paulista apaixonado pela cidade de São Paulo e o homem atento às estéticas de vanguarda vindas da Europa. Há ainda em Mário o missivista, a quem de fato apetece relacionar-se, conviver na intensa troca de cartas.

 

Mário é também um dos articuladores da Semana de Arte Moderna que, em 1922, inaugura oficialmente o nosso Modernismo. A abertura do movimento estava há exatos cem anos de nossa independência e seu intuito maior seria pensar o Brasil, nação já com um centenário de existência. E dos proponentes da Semana Mário se tornaria dos mais comprometidos com a proposta. A ideia de apreensão da identidade nacional habitava-o. Por isto, para nós é fundamental o universo de seus interesses. Importante também é sua compreensão da história e do lastro existente entre nosso Modernismo e a matriz romântica brasileira. No mesmo episódio, São Paulo começa a ser centro propulsor de cultura. O dinheiro do café e o da indústria facultam-lhe a situação. A ligação entre o núcleo modernista, as vanguardas e a cultura francesa também justifica o novo momento.

 

Em meio a estes fatos, Mário desponta. Após a Semana e ainda em 1922, publica Pauliceia Desvairada, o livro com o qual começamos de fato a ser modernos. A vertigem e a vida acelerada de uma grande metrópole encontram-se na publicação. No prefácio, encontram-se também delineadas as ideias que encabeçaram a Semana. O livro é, por isto, um dos primeiros testemunhos impressos acerca do evento. Pauliceia contém ainda o emblemático “Ode ao burguês”, poema de Mário, lido em uma das noites do Municipal. Macunaíma (1927), na sua vez, é o próximo passo de importância na carreira do escritor. O herói sem nenhum caráter (mas não mau-caráter) é a expressão daqueles que desejam saber quem são. O personagem, por isto, é metáfora representativa. Por trás dele estamos nós, os brasileiros, à cata do nosso ethos ou o inventando.

 

Macunaíma, um romance atípico, é, devido à sua pretensão, a maior obra de nosso Modernismo. Podemos ainda o chamar de obra seminal. Sua presença chama à cena outras obras irmãs. Destas o intuito é também discutir a identidade brasileira, e isto acontece sob pontos de vista diferentes entre si. Devido ao fato, elas inovam. O interesse não é o destaque de tipos regionais. Isto o Romantismo já o fizera. Quer-se ir além, mas sempre na divulgação da ideia de que somos (positivamente ou não, segundo a leitura) a mestiçagem. Retrato do Brasil, de Paulo Prado, é uma destas obras. Editada em 1928, ela fala de nós, mas nos vendo negativamente, posição contrária à de Mário. Para Prado, somos o encontro de três raças, mas o legado delas é a baixa criatividade, o embotamento, a inércia. Somos, por isto, um povo triste.

 

Além deste fato, somos descendentes do rebotalho do reino. Em nossa formação, se conjuraram prostitutas, assassinos extraditados, hereges de toda a sorte, degredados. Não bastando, esta circunstância se entrelaça aos negros da África com o seu banzo e à população autóctone errante. Nos anos 30, entretanto, as interpretações sobre o brasileiro mudam de foco. Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda seriam os responsáveis pela mudança. Em certa irmandade com o pensamento de Mário, verão o Brasil positivamente. Os leitores de Casa-grande e senzala (1933) e Raízes do Brasil (1936) confirmarão a assertiva. Na mesma época, o Modernismo está chegando à sua segunda fase. Na extensão, verifica-se que o episódio da contestação galhofeira estava superado. As preocupações com o social ganhavam outro modo de ser na crítica e na obra literárias.

 

 

O romance nordestino torna-se a referência à qual se alude. Na sua vez, o crítico se encanta com esta literatura. Em seus vínculos com o social, ela nos ajuda a pensar nossos contrastes, a nos descobrirmos. Mário, na sua vez, dialoga com seus autores. Se o Rio de Janeiro os publica por meio do trabalho editorial de José Olympio, a crítica do paulista os consagra. Para o romance nordestino, Mário é ainda a lembrança de uma experiência estética libertadora. Os escritos modernistas da década de 20 inovaram a linguagem literária do país. Os moços da semana de 22 saíram vencedores dos embates com a cultura oficial. A sintaxe e o vocabulário dos parnasianos não eram mais a medida da boa escrita. O lirismo comedido, o lirismo funcionário público fora superado. Vocabulário simplificado, ordem direta dos termos, períodos curtos, colocação pronominal à brasileira vigiam, ajudavam a nova literatura a se expressar.

 

Victor Brecheret foi um escultor ítalo-brasileiro, considerado um dos mais importantes do país. É responsável pela introdução do modernismo na escultura brasileira.

A Mário ainda devemos a inserção no universo cultural brasileiro de vários nomes de grande importância. O aval do crítico de arte torna mais visível em nossa cena artística Victor Brecheret e Candido Portinari, para exemplo. Atento, o olhar sensível do esteta e o seu estímulo os ajudam. A aclamação de Mário firma-os no cotidiano de nossas práticas modernistas e de nossa arte. Famoso é o seu encantamento com a escultura e a pintura destes artistas. Mário deixa registrado o prazer de possuir uma cabeça de Cristo esculpida por Brecheret. Conta-nos ainda de sua indignação com a reação negativa dos familiares ante a obra. O Cristo de trancinhas parecera-lhes desrespeitoso e, ainda segundo Mário, o apego às tradições não os deixava ver o novo que viera para ficar, mas sempre dialogando com forças antigas.

 

Na mesma década, Mário ajuda ainda a elaborar a implantação de nossa primeira universidade. Bate-se para que São Paulo esteja à frente deste interesse e, com isto, em 1934 é fundada a USP. Oitenta anos depois, todos reconhecemos a importância deste empenho. Reconhecemos ainda a importância da liderança intelectual que, até sua morte, Mário exercerá. 1945 é o ano de seu passamento e, setenta anos após, é patente a relevância de seu trabalho para o Brasil. Poucos se dedicaram ao país como ele, dando tanto de si. Pelo Brasil, Mário deliberadamente sacrifica até mesmo sua obra literária. Tanto sua extensão como sua qualidade poderiam ser outras, afirmando-se, sempre e todavia, a excelência de tudo que sua produção nos deixou. Por fim, cabe recobrar o Mário missivista, cuja invejável disposição para as cartas é outro grande legado.

 

Candido Portinari pintou quase cinco mil obras de pequenos esboços e pinturas de proporções padrão, como O Lavrador de Café, até gigantescos murais, como os painéis Guerra e Paz, presenteados à sede da ONU em Nova York em 1956.

Devido ao fato, por justiça é preciso afirmar que a correspondência do autor é das maiores que temos em nossa história. A Mário agrada, para exemplo, a ideia de conversar com os literatos iniciantes. Neste campo, cedo o escritor firmou-se como opinião abalizada e necessária. A mocidade literata gostava de suas indicações e com suas cartas batia-lhe à porta. Mário, na sua vez, procurava atendê-la o mais prontamente, e sua generosidade e perspicácia o tornaram respeitado e aguardado. Em depoimento, Sabino lembra que a chegada de uma carta de Mário era um acontecimento. Os jovens ficavam eufóricos e tratavam de se reunir para uma audição. Era preciso ouvir o mestre e beber suas palavras e sentidos. Enquanto a carta passava de mão em mão, no grupo se distinguia o receptor da mensagem. Mário de Andrade havia escrito para ele! A atenção nobilitava.

 

A troca de correspondência, entretanto, não se dava apenas entre o mestre e os iniciantes. As cartas de Mário também chegavam aos já consagrados e, entre estes, o prazer da convivência não era menor. O escritor paulista muito dialogou por meio de missivas com Drummond e Bandeira, para exemplo. Poemas, preocupações estéticas, livros, temas e outros teores são comentados e apurados na correspondência do poeta. Em verdade, a escrita da história do Movimento Modernista depende do domínio dos teores desta correspondência. Seu poder de análise é imenso e inquestionável. Quando pouco, toda a proposição pedagógica de nosso Modernismo se encontra nela. As cartas entre Mário e Bandeira a contêm e estudo recente o revela. Em paralelo, graças também ao missivista, a carta é um gênero que, na atualidade, no Brasil se estuda e celebra.

 

 

*Juarez Donizete Ambires é professor de Língua e Literatura Portuguesas no Centro Universitário Fundação Santo André; juarez.ambires@bol.com.br

Adaptado do texto “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 67