Os espiões na cultura pop

Um dos “casamentos” mais felizes e prósperos das artes são as histórias de espiões nas Letras e suas representações no Cinema

Por Adilson de Carvalho Santos* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Brincar de espião era uma das minhas brincadeiras favoritas quando criança, claro que movido pela admiração por Sean Connery, eternamente 007. O imaginário popular sempre teve um lugar especial pela figura do agente secreto. Mas literatura e cinema têm visões diferentes dessa figura misteriosa e sedutora. TV, games, cinema, livros, HQs, os espiões estão em todos os lugares.
Há, contudo, uma grande diferença retratada nos filmes e seus similares literários. A espionagem como é reconhecida hoje é fruto do século XX, das intrigas políticas pós-primeira e segunda guerra. Ainda assim encontramos uma semente do gênero já no século XIX com o escritor norte americano James Finemore Cooper (1789-1851) – autor do clássico O Último dos Moicanos. Este foi um dos primeiros a criar uma história de intriga política nos romances O Espião (1821) e O Bravo (1831), precursores da ideia de um agente infiltrado capaz de levantar preciosas informações para o outro lado. Importante lembrar o trabalho investigativo da lendária agência de detetives Pinkerton, fundada em 1850, que além de ter tido participação na captura de notórios fora-da-lei, conseguiu evitar um atentado ao Presidente Abraham Lincoln através de ações de vigilância que comprovam a máxima de Sun Tzu, autor de A Arte da Guerra, que fala sobre “ser extremamente sutil, tão sutil que ninguém possa achar qualquer rastro”.

 

James Finemore Cooper

A vida real teve nos idos da primeira guerra mundial uma figura icônica para o tráfico de informações sigilosas: a exótica dançarina e cortesã Margaretha Gestruida Zelle (1876-1917), melhor conhecida como Mata Hari. Durante a Primeira Guerra (1914-1918), ela trabalhou para alemães e franceses, fazendo da sedução e do sexo uma arma ainda mais eficaz que uma arma de fogo. Por fim, foi executada por ser agente dupla. Mata Hari agia tal qual Milady de Winter na trama de Os Três Mosqueteiros, sutilmente envolvendo figuras do alto escalão para levantar as informações de que necessitava. Vivida no cinema por Greta Garbo em 1931, Jeanne Moreau em 1964 e Sylvia Kristel em 1985, ela já foi incorporada, parodiada, imitada, tornando-se uma figura sedutora mítica mesmo após seu fuzilamento em 17 de outubro de 1917, aos 41 anos.

 

J. R. R. Tolkien e a Primeira Guerra

 

O estouro de duas Guerras Mundiais e as intrigas advindas dos interesses políticos instigaram a necessidade de agir de forma vigilante e preventiva contra inimigos em potencial, comprovando que “a supremacia da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”, como no tratado de Sun Tzu. O cinema mostrou isso em filmes como Agente Secreto (1936), O Homem que Sabia Demais (1934 e refilmado depois em 1954), O Sabotador (1940) e Intriga Internacional (1959), todos do mestre Alfred Hitchcock e que deixaram bem claro a importância no mercado negro das informações confidenciais para atentados, insurreições e conspirações que podem abalar o equilíbrio de forças no mundo. O mundo bipolarizado do pós-guerra fez nascer a Guerra Fria. Mais do que nunca se via a importância de se controlar o fluxo de informações e evitar que o lado inimigo ganhasse qualquer vantagem. Manter vigilância constante significava se proteger. Nas palavras de Sun Tzu “o lado vencedor de um conflito precisava de vidência, não de espíritos ou deuses, mas de homens que conheçam o inimigo.” Assim proteger-se dos inimigos e interceptar qualquer ameaça em potencial ao status quo ganhou o termo “contra-espionagem”.

 

Alfred Hitchcock

O gênero, contudo, tomou conta da cultura pop com a chegada de Bond, James Bond, publicado pela primeira vez no romance Cassino Royale, de Ian Fleming, em 1953, e transposto para as telas nove anos depois em 007 Contra o Satânico Dr. No, com Sean Connery, o primeiro de seis atores que, desde então, viveram o agente favorito de Sua Majestade, e do público. Fleming trabalhou para a Marinha Real Britânica e para o Serviço de Inteligência Britânico, mas nunca foi um agente de campo como sua famosa criação. Bond nunca teve um rival a altura, em termos de popularidade e longevidade nas telas, mas teve vários imitadores. Em 1966, por exemplo, James Coburn viveu o agente Derek Flint em dois filmes: Flint Contra o Gênio do Mal e, no ano seguinte, em Flint: Perigo Supremo. Ambos seguindo a fórmula de Bond de fazer da espionagem um entretenimento descompromissado com a realidade e sem nenhum vínculo com seus pares literários. Os próprios livros de Ian Fleming já trazem em suas páginas um tom mais sério e seco com o agente secreto sendo nada além de um assassino frio sancionado para matar em nome de Sua Majestade.
Na mesma década, outro que perdeu a essência dos livros nos quais nasceu foi Matt Helm, o espião criado nos livros de Donald Hamilton. Nos cinemas, este ganhou o ar cool de Dean Martin em quatro filmes: O Agente Secreto Matt Helm (The Silencers), Matt Helm Contra o Mundo do Crime (Murderer’s Row), Emboscada para Matt Helm (The Ambushers) e Arma Secreta Para Matt Helm (The Wrecking Crew). Diferente dos livros, o tom dos filmes é de paródia com Dean Martin explorando sua própria persona: um bon-vivant, cercado de belíssimas mulheres e que, por acaso salvava o mundo. Os anos 60 fizeram da figura do agente secreto parte da cultura pop, mas se distanciaram dos elementos literários onde o trabalho de inteligência é descrito de forma mais fria, destituído de qualquer glamour.
Mais próxima da sobriedade de um jogo mortal, no qual nações e impérios disputam a supremacia global são os filmes em que Michael Caine interpretou o agente Harry Palmer, criado pelo autor britânico Len Deighton. Enquanto que nos livros, o agente de Deighton é um narrador anônimo que apenas tem o primeiro nome mencionado uma vez, nos filmes produzidos por Harry Saltzman o personagem ganha uma identidade com a qual o público possa se relacionar, mas mantém o ar desglamourizado de um mero operário do governo. Os filmes Ipcress: Arquivo Confidencial (1965), Funeral em Berlin (1966) e O Cérebro de Um Bilhão de Dólares (1967) ajudaram a reforçar a imagem do espião como o salvador da democracia e da liberdade contra as forças do mal. Mas nem tudo é preto e branco quando se trata do gênero e há cinzas por toda a parte, ao menos para autores que souberam retratar em páginas, o que é a vida de um espião.

 

Mata Hari

O escritor britânico John Le Carré (pseudônimo de David John Moore Cornwell), ainda vivo e com 85 anos, se concentrou em aprofundar nesse lado frio e sem encantos da espionagem, não uma brincadeira, mas um braço forte do jogo de poder das nações. O autor conheceu o lado real da espionagem por ter trabalhado no MI6, o serviço secreto britânico. Entre seus livros estão O Espião que Saiu do Frio (1963), A Garota do Tambor (1983), O Espião que Sabia Demais (1974) e O Homem Mais Procurado (2008). Todos best sellers frequentemente adaptados para o cinema, sendo esses dois últimos as mais recentes visitações de Hollywood com excelentes atuações, respectivamente, de Gary Oldman e Philip Seymour Hoffman. Le Carré ousou também tratar da Russia pós-glasnost em A Casa da Rússia (1989), falou da interferência dos Estados Unidos na América Central em O Alfaiate do Panamá (1996) e denunciou os abusos da indústria farmacêutica na África em O Jardineiro Fiel (2001). Em todos, o autor questiona as implicações morais por trás das ações dos espiões e desenrola suas tramas sempre encontrando espaço para a reflexão de um serviço frio e calculista que visa beneficiar interesses que não necessariamente são os do bom-mocismo como o cinema de Bond e similares fez parecer.

 

Conheça os robôs da Literatura

 

Igualmente importantes no gênero são os autores Robert Ludlum (1927-2001) e Tom Clancy (1947-2013). O primeiro é o pai do espião Jason Bourne. Uma arma humana treinada pelo governo para matar e que acaba por se tornar um embaraço e uma ameaça para o sistema quando perde sua memória. Sua história foi mostrada em A Identidade Bourne (1980), A Supremacia Bourne (1986) e O Ultimato Bourne (1990), adaptados para o cinema a partir de 2002 com Matt Damon no papel de Bourne. O estilo seco de Ludlum o tornou especialista em tecer uma intricada teia de acontecimentos, evidenciando o suspense. Também falou sobre agentes soviéticos infiltrados nos Estados Unidos em O Casal Osterman (1972) e tratou da herança do Terceiro Reich e de neo-nazismo em O Documento Holcroft (1978). Já Clancy mostrou-se hábil em retratar os bastidores do Serviço de Inteligência Americano, e o uso de novas tecnologias com seu agente Jack Ryan. O autor foi elogiado pelo então presidente norte-americano Ronald Reagan na ocasião da publicação de A Caçada ao Outubro Vermelho em 1984. A ele se seguiram outros livros, todos adaptados para o cinema e vividos por quatro atores diferentes: Alec Baldwin, Harrison Ford (Jogos Patrióticos; Perigo Real e Imediato), Ben Affleck (A Soma de Todos os Medos) e, mais recentemente, Chris Pine no reboot Operação Sombra: Jack Ryan.

 

Ian Fleming

Este último uma história original, sem nenhuma base em um livro de Clancy, seguindo a onda de reboots do cinema.
Casos como o do analista de sistemas Edward Snowden (retratado no oscarizado documentário Citizenfour) que denunciou a máquina de espionagem e invasão de privacidade mostra que a vida real imita a arte, sem os requintes e o lado fantasioso de Hollywood, mas com o rigor de saber que há séculos vigilância e dissimulação fazem parte dos jogos de poder, e que muitas guerras são travadas em meio às sombras que se estendem muito além do alcance dos olhos, pois na prática só se vive uma vez. Em nossas fantasias, no entanto, ainda queremos ser Bond.

 

 

*Adilson de Carvalho Santos é Bacharel em Letras/Inglês (UERJ), licenciado em Letras/Português/Inglês (UNIGRANRIO).

Adaptado do texto “Os espiões na Literatura e no Cinema”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 91