Uma fábula machadiana

Por Leo Rícino* | Fotos retiradas da Revista | Adaptação web Caroline Svitras

Machado de Assis foi autor de muitos gêneros: poesia, teatro, crítica, crônica, jornalismo literário, contos e romances. É provável que ele seja mais lido nos contos e nos romances, mas há muitas outras coisas ótimas diluídas na sua grande obra. Por exemplo, há várias excelentes crônicas, já pendentes para o sentido atual, ou seja, a captação de algum lampejo que causa, mais do que inspiração, forte impressão no autor. Se pegarmos o conjunto das crônicas machadianas, a partir de HISTÓRIAS DE QUINZE DIAS, NOTAS SEMANAIS, BALAS DE ESTALO, BONS DIAS e A SEMANA, nas obras completas da Editora Aguilar, Rio de Janeiro, 1962, elas vão do ano de 1876 até o ano de 1887, e são numeradas.

 

Dentre essas crônicas, numa do ano de 1892, de A SEMANA, encontramos uma verdadeira joia que retrata o advento dos bondes elétricos na então capital do País, o Rio de Janeiro. Trata-se da crônica 107, do dia 16/10. No entanto, Machado de Assis já havia abordado bem ligeiramente o mesmo assunto na crônica 105, de 02/10.

 

A crônica-fábula 107

Como já observei, creio que as crônicas machadianas são bem menos lidas do que seus contos e romances. Conheço dezenas de leitores machadianos que nem sequer ouviram falar de suas crônicas. Ou de suas críticas literárias. Ou de seu teatro. Talvez elas venham sendo mais exploradas em trabalhos acadêmicos e de fato há algumas dissertações e análises interessantes sobre elas. Para o leitor que ainda não leu essa crônica-fábula tenha ideia do seu conteúdo, ela é composta em sua maior parte pelo diálogo entre os dois burros que puxam o bonde de tração animal no qual está o atento narrador conhecedor da língua deles – o Houyhuhnms gulliveriano – e que capta a conversa entre eles. Os burros discutem, de forma bem lúcida, qual será o futuro deles após o advento do bonde de tração elétrica.

 

A primeira coisa que chama a atenção do narrador é a percepção – verdadeiramente machadiana – do ar de superioridade do condutor do bonde elétrico ao olhar para os passageiros do bonde de tração animal, quando se cruzam. O ar era tão superior que o narrador nos transmite a sensação de que o condutor agia com tal empáfia que passava a impressão de que ele era o inventor não só do bonde elétrico, mas da própria eletricidade. Vivia a glória alheia como se fosse sua, mas o narrador, condescendente, não via por que tirar esse prazer dele, sem ter o que oferecer em troca. Cada um com suas glórias! O leitor, com certeza, conhece vários casos semelhantes.

 

 

O diálogo

A despeito de estar no banco da frente, o narrador só consegue ouvir a conversa entre os burros apenas quando o seu bonde já está totalmente vazio, e o cocheiro e o condutor estão aparentemente cochilando. O silêncio, pois, propicia ouvi-los, mas o diálogo já vinha de bem antes, é claro.

 

O burro da direita é aquele que conhece profundamente a história e a vida da sua espécie desde o começo do mundo e é mais realista do que o utópico burro da esquerda. Este acha que, com o advento do bonde elétrico, os burros serão libertados e indenizados, com aposentadoria digna pelos relevantes serviços prestados. Aquele, no entanto, sabe que a história será bem outra e que a única liberdade de que gozarão será a de, abandonados à própria sorte, já velhos e bem debilitados pela lazeira, morrer e apodrecer na rua – atrapalhando a vida dos viventes.

 

O primeiro bonde elétrico da Companhia Ferro Carril do Jardim Botânico, do Rio de Janeiro, foi fornecido à empresa por uma precursora da GE no Brasil.

 

Moral da história

A crônica é de outubro de 1892, quatro anos após a Abolição. Lembremo-nos de que o rebuliço social pela libertação dos escravos tinha sido bem intenso. Alguns anos antes dela, poetas fundamentais como Castro Alves e Luís Gama, além de outros homens proeminentes da sociedade da época, já vinham movimentando a luta pela libertação dos negros.

 

Sabemos também, pelos estudos atuais sobre o discurso, que não há produção de texto sem intenção. Quando se fala, por exemplo, ‘bom dia’, não há de fato o desejo de que o interlocutor tenha um bom-dia, mas sim a intenção de abrir o canal de comunicação.

 

Ora, o trato que Machado de Assis dá ao diálogo entre os burros coincide com o que vinha acontecendo aos ex-escravos, cuja liberdade ocorrera de fato, mas não de direito, pois a maioria deles sequer conseguiu emprego, já que a mão de obra gratuita começou a ser substituída pela mão de obra remunerada, não deles, mas de imigrantes estrangeiros.

 

Jamais houve nenhum agradecimento a eles pelos serviços prestados, nenhuma aposentadoria, nada. Receberam o tratamento dado a qualquer mercadoria descartada, por velhice ou alguma inutilidade. A única liberdade que ganharam foi a de morrer à míngua, mas não a de vivê-la.

 

Crônicas machadianas: uma faceta menos conhecida

 

O próprio burro da direita, o mais realista, ao demonstrar essa ausência de mudança de situação, alerta que o próprio Jesus preferiu nascer ao lado dos burros, juntando sua humildade à deles, mas nem por isso os homens os respeitam por tal escolha divina. Se lhes poupam chicotadas durante o Natal, dão-nas em dobro no dia seguinte.

 

E ainda dá um alerta ao burro da esquerda: quando, como ‘objetos’ que são, forem vendidos a um carroceiro qualquer, possivelmente apanharão menos, mas unicamente para evitar desgaste da peça, já que um dono único (diferente de uma empresa como a dos bondes) valoriza mais o quanto pagou pela mercadoria e procura dar a ela o máximo de longevidade para obter a maior produtividade possível.

 

Em relação aos ex-escravos – e eis a analogia –, não nos esqueçamos de que Baltasar, um dos reis magos que visitaram Cristo ao nascedouro, era negro. Nem por isso, os negros deixaram de ser escravos em vários países, incluindo o nosso. Moral da história: a condição de mercadoria é a mesma, qualquer que seja seu dono.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 56

Adaptado do texto “Uma fábula machadiana (ou outro Apólogo)”

*Prof. Leo Rícino – Mestre em Comunicação e Letras – Professor na Fecap – Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado e instrutor na Universidade Corporativa Ernst & Young.