“Leite derramado” e o tempo

O romance contemporâneo brasileiro constrói a memória pela evocação dos fatos passados, submetendo-os à crítica do presente, ou pelo espelhamento mútuo dos tempos, discutindo-os em perspectiva.

Por Roberto Sarmento Lima* | Adaptação web Caroline Svitras

Numa cama de hospital, Lalinho, Lalá ou, se quiserem, Lilico, não é nem sombra do que foi um dia. Hoje, um tipo caquético, esperando a morte chegar, afunda-se cada vez mais em esparsas recordações de um passado glorioso, que se mostra, em relação ao presente, totalmente extemporâneo, sobretudo pela exibição de algum deslumbre de condição de classe que ele, desiludido, viu se perder com o tempo. Passado que também se revela fragmentado ao tentar recompor-se pelo discurso desse narrador centenário, que mal articula episódios de ontem e de hoje, numa associação desencontrada:

 

“Já tirei não sei quantos raios X, já me reviraram todo e no fim não dizem nada, nunca me apresentaram uma chapa de pulmão. Por falar nisso, eu amaria dar uma olhada nas minhas fotos particulares, e o doutor, que tem um ar polido, se não se importar, dê um pulo na minha casa. Peça à minha mãe que lhe indique a escrivaninha barroca de jacarandá cuja gaveta central é abarrotada de fotografias.” (p. 24)

 

Logo se vê que os tempos se misturaram: a vivência atual no hospital, de onde Lalinho narra, e a evocação do passado, trazendo de volta a mãe, quando ainda estava viva. Tornado fato presente, como se não houvesse hiato entre os dois tempos, o ontem se conjuga ao hoje numa só expressão, instância que ora se reporta a elementos da realidade circundante (“raios X”, “chapa de pulmão”, “o doutor”), ora faz reanimar o que já não existe de efetivo (“fotos particulares”, “minha mãe”, “escrivaninha barroca de jacarandá”).

 

O escritor Chico Buarque

 

As recordações são fetichizadas pela presença de objetos que parecem dialogar sozinhos, dando a impressão de dominar os sentimentos de fragilidade e abandono que a velhice e a doença mal amparadas em um hospital público podem causar a um doente que já perdeu todas as esperanças. Eis que se cruzam, por fim, uma época de fausto – que, se tem algum valor compensatório em face do presente ruim, já declinou e não tem mais jeito de voltar – e o momento do próprio narrar, que, pelo seu articulador discursivo (“Por falar nisso”), acentua o método metonímico de compor, em associações de contiguidade. O que chama atenção nesse contexto narrativo é que o presente não rompe com o passado, mas o incorpora, para fazer a sua crítica ao próprio presente. Enquanto o hospital é fétido e mal aparelhado, ressurge nas lembranças certo belo chalé de Copacabana, que, no passado, ocultava e disfarçava uma história de mentiras, enganos, adultério e assassinato, em favor da manutenção do bom nome da família. Aparências, nada mais; hipocrisia, perversão.

 

Assim, que valor teria hoje evocar, como símbolo de poder, um antigo e imponente chalé, se o que se vê agora ao redor são apenas prédios de apartamentos, uns já envelhecidos, outros ainda exibindo algum encanto nesse que é o mais charmoso bairro do Rio de Janeiro? Mas o paralelo é indispensável para realizar o presente discursivo. A sociedade parece, então, só ter agravado seus males e patologias que o discurso do velho não só escancara em sua semidemência, como também os justifica. Nunca houve, de fato, uma época feliz, harmoniosa, sem conflitos.

 

Em consequência desse estado – dominado pela ressurreição de fatos passados e decepção com o presente –, nacos de expressão da fala desse velho, em franca consonância com sua figura física, criam a imagem do caos. Afinal, fora jogado à própria sorte; a filha octogenária o visita quando quer ou pode; o tetraneto envolvera-se com o tráfico de drogas; e apenas as enfermeiras, sisudas e meio impacientes, têm para com ele uma regularidade de visita, mas só porque é algo exigido na profissão que exercem. A sociedade, a julgar por essa célula narrativa, é fria e indiferente ao destino do humano – só, esquecido, ridículo, deitado em um leito de hospital, Lilico, narrador do romance Leite derramado (2009), de Chico Buarque, parece ter saído de uma ópera-bufa.

 

Ensino da literatura nacional

 

Ao imaginar um narrador velhusco e impertinente, teimoso e falador para discutir a crise dos valores humanos no mundo atual, o autor serviu-se do foco de primeira pessoa, entregando a responsabilidade do narrar a esse estabanado, Eulálio Montenegro d’Assumpção. Incrível que aos 100 anos tal sujeito ainda se recorde de tanta coisa e mantenha também certo fiapo de lógica na descrição dos acontecimentos já vividos:

 

“A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas.” (pág. 41)

 

Notemos que a memória é um vão, uma espécie de despensa de uma casa, na qual, dispersivamente, se acumulam coisas (“um pandemônio”), que podem, porém, com jeito e alguma atenção, em certo dia de faxina, ser arrumadas, facilitando a percepção mais fina dos objetos depositados (“o dono é capaz de encontrar todas as coisas”).

 

 

O nome e a casa

“É só lembrarmos os românticos, nossos primeiros modernos, e ver como valorizavam a natureza e os espaços infinitos. Hoje, o homem fecha-se em si e ao mesmo tempo dentro da casa ou do quarto.”

 

O narrador contemporâneo parece ter ânsia por lugares fechados: casas, porões, escritórios, armazéns, galpões ou interior de ônibus, caminhões, elevadores. Que insegurança é essa, que medo é esse de ficar ao relento ou à mercê das paisagens da noite e do dia? É só lembrarmos os românticos, nossos primeiros modernos, e ver como valorizavam a natureza e os espaços infinitos. Hoje, o homem fecha-se em si e ao mesmo tempo dentro da casa ou do quarto.

 

Contos de Machado de Assis

 

O que importa, por enquanto, é reunir “tudo lá dentro”, escapar da luz e do barulho que se produzem lá fora. Assim, se tranquiliza momentaneamente o ser aturdido e confundido na multidão, o pós-baudelairiano, depois da experiência fugaz do flâneur. Prefere-se agora, ao contrário, o retorno ao útero e ao conforto do receptáculo, de modo que aquilo que está fora do quadrado da casa, ou do quarto, é uma ameaça à própria construção identitária. Daí advém a necessidade de reduzir o mundo a um vão estreito, suscitando as imagens de cômodos de uma casa, modo que é o desse narrador de Leite derramado ao se referir ao próprio ato de lembrar:

 

“Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto da minha cabeça. Já para o passado, tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas da faculdade que eu já tinha esquecido (…).” (pág. 14)

 

Sem esse controle, não poderia haver recordação: o recurso ao “canto” e ao “salão” garante ao memorialista centenário estabelecer um elo resistente – confuso e mal articulado, mas um jogo capaz de preservar aos trancos e barrancos a identidade do memorialista – com o presente, que corre pelo leito do discurso. Mescladas as passagens temporais, não é à toa, portanto, que a lembrança se dê, na sua maioria, em locais fechados, superpostos, combinados e fundidos. No exemplo que dou agora, as paredes do quarto do hospital se confundem, subitamente, com o quarto da infância. É óbvio que o pai, por já ter morrido, não poderia ter passado no hospital para ver o filho de 100 anos, mas é assim que este enxerga e constrói a cena:

 

“Quem hoje veio me ver foi o papai, que nunca aparece no meu quarto. Passou para me recomendar que ficasse pregado na cama, senão a caxumba desce para os ovos, o saco fica enorme e o pinto vira pelo avesso.” (pág. 129)

 

Diferentemente do romance histórico tradicional, a construção do discurso da memória se serve de locuções verbais dirigidas ao presente, insinuando-se no futuro (“veio me ver”, “passou para me recomendar”). A aparição da luz da manhã, vinda de fora do hospital, dissolve a frágil lembrança, sem, no entanto, provocar no seu espírito o discernimento entre o que se passou e o que ainda existe no momento em que narra:

 

“Só que de repente alguém abriu a persiana e com o sol na cara não vejo mais nada, sumiu minha mãe que estava aqui agora mesmo. Se alguém a encontrar, por favor lhe peça que venha de novo falar comigo, é importante.” (pág. 130)

 

Senhora, de José de Alencar

 

Ora, pai e mãe não existem mais no momento exato em que o discurso os lembra e retém na superfície da frase. Como se vê, a memória é realmente uma barafunda, um pandemônio, como disse o narrador em momento de lucidez. O bom, então, é alhear-se, fugir do sol, manter as cortinas cerradas, dormir, voltar ao útero da vida, à posição fetal, à casa dos pais, à casa em que viveu com Matilde, aquela de pele tisnada que a família aristocrática, por esse detalhezinho, rejeitava. Daí, em meio a tanta mudança de costumes e da economia do país e, paralelamente, à crescente desvalorização do nome tradicional de família, impõe-se, como recorrência nessa narrativa, a lembrança do chalé de Copacabana. Numa das vezes em que desperta, Eulálio se vê em algum casarão do passado; e é isso que ele diz à enfermeira-chefe do hospital em que se encontra, como se sentisse os mortos ainda à sua volta:

 

“Quando a senhora me acordou, por coincidência eu acabava de acordar no casarão de Botafogo e aposto que minha mãe mandou queimar o colchão naquele mesmo dia. No chalé de Copacabana, a cama era de casal (…)” (pág. 70)

 

Ensino da Literatura na escola

 

Acordar é como vir à luz, nascer de novo, deparar com o sol invadindo o quarto e destruindo a intimidade e o recolhimento, de que a casa é ícone privilegiado. Numa sociedade como a nossa, capitalista, em seu momento agudo de pulverização das subjetividades, não há mais lugar para símbolos como o nome e a casa. Contra o resguardo garantido pela interioridade da casa, a arquitetura moderna trouxe o vidro e o aço, como o denuncia Walter Benjamin no ensaio “Experiência e Pobreza”, de 1933:

 

“Não é por acaso que o vidro é um material tão duro e tão liso, no qual nada se fixa. É também um material frio e sóbrio. As coisas de vidro não têm nenhuma aura. O vidro é em geral inimigo do mistério. É também o inimigo da propriedade. (…) O novo ambiente de vidro mudará completamente os homens.”

 

Se, de acordo com essa análise de Benjamin a respeito da arquitetura moderna e de sua relação com a existência humana e seu conjunto de valores, o vidro é de fato inimigo da subjetividade, por permitir a passagem da luz para dentro do apartamento, transformando o ambiente em vitrine para quem, da rua, queira ver o que ocorre dentro do lar, rompendo o recato da intimidade, o nome, por sua vez, maior símbolo da família e da casa – lá se vão os tempos em que se escrevia um romance com o título Os Maias, de Eça de Queirós –, é signo apenas, não mais representação. Um signo que não remete ao referente, mas a si mesmo como entidade que vale por si só. Autonomizam-se palavras e coisas: o nome de família não mais ecoa no presente.

Falta de transcendência

Sem apego, pois, à tradição e à noção de casa ou de família – “O que é um nome?”, perguntava-se Julieta, de Shakespeare, já por volta do finalzinho do século XVI –, o herói contemporâneo, que não é mais o moderno que se encanta com as ruas e o bulício e a agitação da cidade, quer voltar sem mais demora para o casulo. Na contemporaneidade, a rua vira inimiga da casa. Mas, surpreendentemente, o melhor e o pior do mundo estão dentro de casa. O melhor e o pior se confundem, se misturam (com o uso do vidro na arquitetura se perdeu a segurança, diria Benjamin); deve ser por isso, então, que a linguagem de Eulálio d’Assumpção não raro desce ao nível mais popular e chulo que existe (onde estaria o velho fidalgo, estudado nas melhores escolas do país?):

 

“Aqui não gozo privilégios, grito de dor e não me dão meus opiáceos, dormimos todos em camas rangedoras. Seria até cômico, eu aqui, todo cagado nas fraldas, dizer a vocês que tive berço. (…) Hoje sou da escória, igual a vocês, e antes que me internassem, morava com minha filha de favor numa casa de um só cômodo nos cafundós. (…) Do meu último passeio só me lembro por causa de uma desavença com um chofer de praça (…) escute aqui, senhor, eu sou bisneto do barão dos Arcos. Aí ele me mandou tomar no cu mais o barão, desaforo que nem lhe posso censurar.” (pág. 50)

 

Crônicas em sala de aula

 

A mistura de registros – um alto representante da aristocracia paulista expressando-se como o mais reles dos sujeitos sem eira nem beira – é correlata da fusão de estilos, gêneros e linguagens, nova sensibilidade dos dias que correm. Céu e inferno estão aqui mesmo, já que parece ter desaparecido a ideia de algo transcendente a este mundo, como Deus ou a Natureza. Num mundo frio em ideais, que importam, pois, os projetos pessoais? A morte e o futuro? Nada restará, pois, como diz Eulálio,

 

“Quando eu morrer, meu chalé cairá comigo, para dar lugar a mais um edifício de apartamentos.” (pág. 49)

 

Sem transcendência nem permanência do ser em outro, esse modo de pensar já se encontra em Machado de Assis pela boca de Brás Cubas, talvez o primeiro pós-moderno da literatura brasileira, que, por essa sintonia com um presente eternizado (facultado a ele pela morte), celebra, no último capítulo de suas memórias, nada mais, nada menos do que… o nada. Com Eulálio d’Assumpção morre um mundo velho, do qual não restará nenhum fiapo de lembrança do passado, só do futuro, porque aquele, imiscuindo-se vivamente no presente, se transformou em discurso, que, por sua vez, sobreviverá como livro. Por isso, o que esse narrador registra como passado vive – no discurso – como futuro; assim que se abre o romance, Lalinho dirige-se à enfermeira, projetando um mundo novo que, sabemos, nunca se realizará, mas não é isso que o dono do discurso pretende:

 

“Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos (…).” (pág. 5)
Com os verbos no futuro, misturam-se na mesma cena projetada coisas velhas (“o vestido e o véu da minha mãe”, os “rendados”, os “cristais”, a “baixela”, as “joias” e “o nome da minha família”) e as coisas do mundo moderno atual (“luz elétrica”, “televisão”, “ar condicionado”), como se fosse possível juntar tudo no mesmo espaço e na mesma circunstância. Não se trata, entretanto, de imageria ou loucura crescente nesse narrador esclerosado, mas de um tratamento ficcional do tempo narrativo, tempo decididamente pós-moderno, em que o tempo vivido se torna tempo das coisas, abstraído do tempo da história, como sugere a análise da vida econômica e cultural da contemporaneidade feita por Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo (1992).

 

Coisas relacionam-se com coisas e não espanta que, nessa realidade, pessoas sejam também coisas, pois nada restará do humano (este foi o consolo de Brás Cubas, que não transmitiu a ninguém o legado da miséria da espécie), a não ser uma solidão irremediável, raiz do anti-humanismo contemporâneo. A única saída é, pois, viver instantes prazerosos; e o que importa, ainda que ilusoriamente, é tão somente consumir. Nessa situação em que todos parecem iguais, ao menos nesse desejo primário de satisfazer os imperativos do sonho, do sexo e da fome, relativiza-se e diminui a distância entre, por exemplo, esquerda e direita no campo da política, porque tal polarização já é uma bobagem na vida prática, como sugere Alfredo Bosi em Ideologia e Contraideologia (2010):

 

“Partidos social-democráticos tidos por esquerdizantes voltam-se hoje para a inclusão do maior número possível de trabalhadores nos quadros formais da economia capitalista, facultando-lhes o acesso a alguns bens de consumo e descartando abertamente o recurso à luta de classes, outrora pedra de toque do marxismo ortodoxo.” (págs. 122 e 123)
A necessidade de relembrar, por parte de Eulálio, implica sua entrada também no circuito do consumo dos discursos. Que não se entenda o processo como queda de qualidade artística, mas como a expressão da sintonia com a realidade atual em que se combinam o sublime e o vulgar, sem que seja mais possível discernir quais são os seus contornos e limites, assim como se torna difícil cada vez mais entender a separação – um dia rígida – entre esquerda e direita, erudito e popular, homem e mulher, campo e cidade. Da mesma forma, os tempos: misturam-se e equivocam-se num entrelaçado fugaz que por vezes se derrama e espalha como leite no chão.

*Roberto Sarmento Lima é doutor em Letras e professor da Universidade Federal de Alagoas (sarmentorob@uol.com.br).

Adaptado do texto “Lembranças do futuro”

Foto: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 54